 

Moyra Tarling
Um desejo especial
 
Ttulo: Um desejo especial
Autor: Moyra Tarling
Ttulo original: The baby arrangement
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1999
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna
Estado da Obra: Corrigida


Um homem...
um beb... um amor!

Tudo o que Alessandra queria era ter uma famlia, algum com quem dividir um lar. De repente ela se viu cuidando de um beb e dormindo sob o mesmo teto com um homem maravilhoso. Christopher no apenas lhe despertava desejos havia muito desconhecidos como era o homem mais amoroso que j conhecera. Alessandra sabia que aquela  situao seria insustentvel, e mais cedo ou mais tarde teria de partir. Ser que ela conseguiria mostrar a Christopher que podia fazer parte no s da famlia como da vida dele?




PRLOGO

Paula Preston dirigia seu carro em alta velocidade havia algumas horas, querendo alcanar o mas rpido possvel a cidade de San Francisco. A chance de sua vida, pela qual aguardara com tanta ansiedade, chegara, por fim, e nada no mundo iria impedi-la de realizar seu sonho. Nem mesmo o lindo recm-nascido que dormia no banco de trs.
 Ah, meu amorzinho, a mame sente muito, mas voc no estava nos meus planos. Porm, no se preocupe. No acho que uma existncia nmade seja boa para uma criana. H algum que poder cuidar de voc to bem que no haver tempo de sentir minha falta. Confie em mim!
O beb dormia a sono solto no carrinho desmontvel, bem atado ao cinto de segurana.
 Seu pai jamais me deixaria partir, Nicholas. Ele no consegue compreender que, para certas mulheres, h coisas mais importantes que a maternidade. Creio que desde que tinha seu tamanho eu sonhava em ser uma estrela do cinema. Tenho lutado muito para poder mostrar meu talento, e agora minha hora chegou! Est feliz pela mame?
Por fim, alcanou a cidade. Em breve estaria junto de sua querida irm, que jamais lhe negara o que quer que fosse.
 Se bem que nunca apareci  porta da casa de Alessandra com um pimpolho nos braos... Bem, mas minha gmea  do tipo maternal, e no iria se negar a ficar com o prprio sobrinho. C entre ns, Nicholas, como sempre, a mame pensou em tudo. Preocupo-me muito com seu bem-estar, mas nem passa por minha cabea abrir mo do estrelato por voc. No quero que se sinta rejeitado. Eu te amo. Afinal, o carreguei por nove meses dentro de mim. Mas sempre vim em primeiro lugar em tudo, querido... O que fazer, no ? Paula virou  direita.
 Mais dez minutos e estaremos l.
Logo alcanou o endereo procurado, e estacionou o automvel.
Bem, irmzinha, uma surpresa e tanto a aguarda! Agora  hora de a grande atriz Paula Preston entrar em ao. Apesar de que, pelo que conheo de Alessandra, tenho certeza de que no terei muito trabalho para convenc-la a ficar com voc por algum tempo, Nicholas. S o que sua tia no sabe  que no pretendo voltar para busc-lo...
 Eu me meti em uma enorme confuso, Alessandra.  Paula empurrou o carrinho de beb e a sacola com fraldas para dentro.  No soube para que outro lugar ir.
Alessandra engoliu em seco, aturdida com algo to inesperado.
 O beb  seu?
Sentiu-se tola em fazer a pergunta, mas nem mesmo soubera que a irm gmea ficara grvida.
Sim, Nicholas  meu  Paula confirmou com um suspiro pesado, e Alessandra no percebeu nem orgulho nem alegria em sua entonao.  No devia ter acontecido.
Cada frase dela deixava claro o profundo aborrecimento que a circunstncia lhe causava.
 Eu me esqueci de tomar algumas plulas, Alessandra. Foi isso.
  mesmo? No diga!  Alessandra fixou o olhar em Paula de soslaio at conseguir encar-la, imaginando se a irm j teria, algum dia, pesado as consequncias de suas aes.
 Voc no vai me dar um sermo ou algo assim, vai?
 No, no pretendo gastar meu tempo precioso de novo,  toa.  Alessandra piscou vrias vezes para ocultar as lgrimas.  Mame e papai ficariam emocionados...
No mesmo instante, notou uma grande culpa cintilando nas pupilas da irm.
Voc no lhes contou?!  Alessandra percebeu a verdade sem precisar ouvi-la.
Seguiu Paula at a sala de estar.
 No, no disse nada a eles, Alessandra.  Jogou-se sobre a poltrona.  Nem a ningum. Eu no pude...
Parou de falar e respirou fundo.
No depois do que voc passou com rica  acrescentou, num murmrio.
 Certo.  Alessandra ficou surpresa e tocada com o gesto da irm.
Olhando para a gmea, notou a palidez em suas faces.
 Ento, conte-me, Paula. Em que espcie de trapalhada se meteu desta vez?
Alessandra sentou-se na namoradeira perto da lareira de granito, com o sobrinho nos braos.
  complicado...  Paula no erguia a cabea para fitar Alessandra.
 E algum dia voc deixou de ser complicada? Pelo que sei, atrai encrenca com cada poro.  Essa foi uma tentativa de faz-la sorrir.
Deu certo.
 Sei disso, Alessandra. Mas dessa vez, bem... Acho que abocanhei mais do que consigo engolir.  Deixou escapar outro suspiro.
Alessandra permaneceu em silncio, sabendo por experincia ser intil proferir indagaes. Paula, caso se sentisse inclinada a falar, daria as explicaes por livre e espontnea vontade, no tempo certo. Ou no.
 Qual a idade do garotinho?  Alessandra quis saber quando o pequerrucho comeou a se retorcer em seus braos.  E se no estiver sendo inconveniente... quem  o pai? Algum que eu conhea?
 Nicholas nasceu em quinze de setembro.
 Apenas duas semanas atrs! E o pai?
 O nome dele  Christopher McAndrew. No  ator, se  o que est pensando. A me dele era atriz, mas isso no conta.
 No  ator... Isso sim  uma novidade. Paula voltou a sorrir.
 Christopher  advogado.
 Um advogado!  Alessandra fingiu estar chocada.  Como pde se envolver com um?!
 Conheci-o por intermdio de um amigo comum. Primeiro, achei que fosse artista.  lindo o suficiente para isso, com maravilhosos olhos azuis, cabelos pretos e uma covinha muito sensual no queixo.
Paula quedou-se em silncio, sorrindo consigo si mesma.
"Definitivamente, por esta interpretao eu mereo um Oscar!"
Alessandra queria que a irm dissesse mais, mas Paula parecia to concentrada nas prprias conjecturas...
 O tal Christopher assumiu a criana?
 Sim. O nome completo de seu sobrinho  Nicholas Preston McAndrew. Eu resolvi cham-lo assim em homenagem a vov Preston.  A entonao de Paula suavizou-se ao mencionar o adorado av.
 Vov ficaria orgulhoso e muito satisfeito!
Alessandra ainda encontrava dificuldade para aceitar que o menino em seus braos pertencia a sua irm.
Casamento e filhos sempre estiveram no topo da lista de objetivos de Alessandra, mas nem de longe constavam das prioridades de Paula.
 Por acaso o rapaz que no  ator, o advogado que no faz parte do mundo de espetculos, sabe que  pai?
 Que pergunta boba! Se Christopher no soubesse, como Nicholas poderia ter o sobrenome dele, Alessandra? Oua, irm, meus nervos esto em frangalhos, e sinto-me exausta demais para raciocinar, quanto mais explicar tudo. Preciso apenas de algumas horas ininterruptas de sono. Essa rotina de me tem acabado comigo. Comeo a achar que no fui talhada para isso. No tenho uma noite de repouso decente desde antes de que Nicholas nascer.
Alessandra conteve um gargalhada.
 Bem-vinda ao mundo real, Paula! V dormir um pouco. A cama do quarto de hspedes est arrumada.
 Obrigada, meu amor.
Paula se levantou, deu alguns passos, e ento parou e virou-se para Alessandra.
 Oh... voc no se importaria de tomar conta de Nicholas, no  mesmo?
Alessandra fitou o garoto adormecido, enternecida.
 No, no me importo  respondeu, surpresa e feliz em descobrir que falava a verdade.
No tinha olhado direito para um beb, nem se importado em carregar um desde a morte de rica. De fato, Alessandra evitara situaes onde poderia encontrar-se com algum que tivesse filhos pequenos.
Mas a sensao do peso de Nicholas nos colo e seu perfume doce eram to confortadores...
Observou o peitinho subir e descer, hipnotizada pelo milagre em seus braos. Aquilo parecia diminuir a tristeza de sua perda e restaurar um pouco da paz roubada pelo destino.
 Bem, Nicholas  Alessandra falou com suavidade assim que Paula desapareceu pelo corredor.  Acho que somos apenas voc e eu. A propsito, sou sua tia Alessandra.
Os olhinhos de Nicholas se abriram em resposta ao som estranho da voz dela, e em segundos a criana comeou a chorar.
Alessandra carregou-o para o dormitrio a fim de troc-lo e aliment-lo. Depois, acomodou-o no centro da cama de casal para que dormisse enquanto ela arrumava a saleta de trabalho. Naquela manh, um mensageiro viera buscar as ilustraes infantis que terminara de fazer para uma editora.
Paula a encontrou na cozinha duas horas mais tarde. Aps perguntar sobre o filho, encheu um copo com suco de laranja e virou-se para Alessandra.
 Oua, irm, preciso voar para Los Angeles esta noite  informou de sbito.
 Como ?!  Alessandra franziu a testa.  Mas vocs acabaram de chegar!
Sentiu-se desapontada por Paula e Nicholas terem de partir to rpido.
 E por um motivo muito importante. Esse pode ser o ponto-chave para minha carreira. E por isso que eu precisava... preciso estar l assim que possvel. Aguardei muito por essa oportunidade, e no posso suportar perder...
 O qu?
Paula apenas balanou a cabea e levou o copo aos lbios. Deu de ombros.
 No tenho tempo para explicar tudo em detalhes, Alessandra. H um avio que preciso pegar. Entretanto, quero lhe pedir um favor.
 Qualquer coisa. Sabe disso.  Alessandra imaginava se um dia Paula lhe contaria toda a histria.
 Posso deixar Nicholas com voc?
Atnita, Alessandra prendeu a respirao diante da idia inesperada.
 Sei que estou pedindo muito...
 E quanto ao pai dele, Paula? No pode deixar Nicholas com o tal Christopher McAndrew?
Paula hesitou e evitou encarar Alessandra.
 Neste momento, essa no  uma opo vivel. E, pelo amor de Deus, no queira saber a razo. Alessandra, ser apenas por alguns dias... No mximo uma semana.
Alessandra notou o familiar tom de splica da irm gmea. Pegou uma toalha na gaveta e secou as mos.
 Claro que cuidarei de meu sobrinho. Pelo tempo que for preciso.
Paula deixou escapar um gritinho de alvio, e suas feies relaxaram bastante. At sua pele pareceu brilhar.
  mesmo?
 Em alguma ocasio j consegui dizer "no" para minha irmzinha?  Alessandra a provocou, com gentileza.
De um salto, Paula tomou-a nos braos, estreitando-a com afeto.
 Minha irm, muito obrigada! Isso significa muito para mim, Alessandra. Posso tomar emprestadas algumas roupas? Eu estava com tamanha pressa quando parti que nem fiz uma mala. Irei s lojas assim que chegar a Los Angeles.
 Claro. Apanhe o que quiser em meu armrio.  Alessandra quis saber de onde Paula viera, mas se conteve. A situao no comportava mais curiosidade.  No h muitas opes, mas fique  vontade.
Paula telefonou para a companhia area e, aps fazer a reserva, chamou um txi.
Enquanto aguardavam pela chegada do automvel, Alessandra tentara obter mais informaes da irm, mas Paula ignorara suas indagaes, e continuou apenas repetindo que seu futuro dependia daquela viagem.
 Eu saberei mais quando chegar l, Alessandra.  Paula sorriu ao ver o txi, enfim, estacionando diante da residncia.  Telefonarei amanh de manh, por volta das dez.
Deu um ltimo abrao em Alessandra e partiu.

CAPTULO I

Christopher McAndrew havia se atrasado demais. Vinha batendo  porta da casa fazia pelo menos dez minutos. Perdera-a. Ela desaparecera pela segunda vez, levando o filho consigo.
Estava tenso ao entrar no carro. Bateu as mos contra o volante quando a sensao familiar de frustrao e raiva o tomou..
Esteve prximo... to prximo! Em silncio jurou no desistir at encontrar o beb recm-nascido, um menino que nunca nem ao menos chegou a ver.
Suspirando, pegou a chave para ligar o motor.
Foi nesse preciso momento que avistou um carrinho de beb virando a esquina e adentrando o local de estacionamento da residncia. Seu corao disparou, descompassado, e a respirao pareceu presa na garganta ao focar o olhar na me de seu pequeno.
Piscou diversas vezes, temendo que seus olhos estivessem lhe pregando peas. Mas no havia engano. Tocou a maaneta, e se viu fora do automvel em um segundo.
Alessandra Nelson empurrava com vagar o carrinho da criana no instante em que viu o veculo preto parado diante de sua varanda. Observou um homem alto e de cabelos escuros usando cala comprida acinzentada e suter azul-marinho emergir do banco do motorista.
Sentiu um arrepio de apreenso na espinha ao ver a expresso de fria no rosto bonito do estranho. Num gesto instintivo apertou com mais fora a barrinha de ferro que segurava, conforme as longas passadas o faziam percorrer com rapidez a rampa.  
 Ol, Paula  cumprimentou Christopher, estacando na frente de Alessandra.  Parece surpresa em ver-me.
Sua voz era profunda e muito grave, mas deixava clara uma rispidez capaz de cortar vidro.
Alessandra umedeceu os lbios, que de repente ficaram secos.
 Desculpe-me. Eu no sou...
 Voc pede desculpas?!  Christopher fez um esgar de desdm.
 No est compreendendo...  disse Alessandra, mas, antes que pudesse at mesmo comear a explicar, as pupilas de Christopher cintilaram com tamanha ira que a silenciaram.
 Oh... voc interpretou muito bem. Mas duvido que um dia eu v entender como pde desaparecer sem dizer uma palavra sequer, Paula. Tnhamos um acordo, lembra-se? Voc achava mesmo que no viria a sua procura?
Diante da entonao desafiadora Alessandra sentiu-se constrangida, e deu uma olhada rpida na direo da casa.
 Nem pense nisso.  Christopher eu um passo para mais perto dela.  Vim buscar meu filho. Levarei o garoto comigo, e a aconselho a no tentar me impedir.
 Mas voc no pode...  Alessandra fitou ao redor, na esperana de que uma viatura de polcia estivesse cruzando a rea.
 Ento apenas me observe  desafiou-a.
 Por favor, voc no entende. No sou...  Alessandra tentou mais uma vez explicar, mas as palavras no conseguiram sair de sua garganta quando viu a carranca ser substituda por uma expresso do mais absoluto embevecimento.
 Ele  lindo...
Aquela frase no passou de um mero sussurro. Christopher observava, embasbacado, o pequenino ser, to perfeito, dormindo como um anjo. Nem mesmo a viso do filho ainda na barriga da me no aparelho de ultra-sonografia do hospital o preparara para aquele momento enternecedor.
Fitando pela primeira vez sua prpria carne e sangue, seu beb, milhares de emoes, mais poderosas, do que tudo o que j sentira antes, o dominou, aquecendo seu corao e levando lgrimas a seus olhos.
A intensidade dos sentimentos o pegou desprevenido. Christopher teve a sbita e premente necessidade de certificar-se de que no sonhava. Estendeu a mo e, com delicadeza, tocou a pele macia do rosto do menininho.
Ao contato, Christopher sentiu um aperto no peito. Ainda contemplando as faces angelicais, notou com algum orgulho os cabelos negros aparecendo por debaixo do bon tricotado.
Inalou profundamente, aspirando o perfume doce da criana mesclado ao cheiro de leite. Em silncio, constatou que nada em seus trinta e sete anos de vida o havia preparado para um instante to profundo.
Christopher soltou a respirao. Ao contemplar a minscula mo, fez ao filho a promessa de ser um pai amoroso e cuidadoso, em tudo igual quele por que tanto ansiara quando pequeno.
Alessandra observou as emoes passarem pelo semblante do estranho e sentiu como se seu prprio corao estivesse sendo arrancado do corpo. Suprimindo um gemido, comeou a empurrar o carrinho na direo da residncia.
 Ei! Espere um minuto!  Christopher marchou atrs dela e agarrou o carrinho, impedindo seu progresso.  Voc no vai fugir de mim outra vez!
Notou que Alessandra comeava a chorar.
 E pode cancelar a encenao lacrimosa, Paula.  Christopher esboou um sorriso amargo.  Depois de tudo o que voc me fez enfrentar nas ltimas duas semanas, no cairei em um truque to velho. Estou aqui por um nico motivo: levar meu filho embora comigo.
Alessandra enfrentou com coragem o olhar glacial. Era bvio que o estranho a havia confundido com sua irm gmea, Paula. E tambm pela descrio que Paula lhe dera, aquele s podia ser Christopher McAndrew, o pai de Nicholas. Mas por que Paula no se incomodara em mencionar que estivera fugindo do homem?
 Se voc apenas me deixar terminar...  Alessandra tentou de novo, mas dessa vez sua explicao foi interrompida pelo choro do sobrinho.
Atnitos, ambos olharam para a fonte do som. O volume dos gritos aumentava, e Alessandra logo assumiu o controle. Inclinou-se e ergueu a criana nos braos, abraando-a. Ninou-a com gentileza, murmurando palavras de conforto.
Por sobre o ombro de Nicholas, Alessandra encontrou os lindos olhos azuis e perscrutadores de Christopher, desafiando-a a confront-lo. Mas, quando decifrou ansiedade nas profundezas daquelas ris, Alessandra sentiu pena do sofrimento dele.
 O menino est com fome  disse a Christopher.  E no gosta de esperar.
E passou a seu lado rumo  entrada da residncia.
Alessandra meteu a mo no bolso da jaqueta e localizou a chave. Abriu a fechadura, e no ficou surpresa quando, ao virar a cabea, avistou Christopher McAndrew seguindo-a e trazendo o carrinho de Nicholas consigo.
Assim que entrou, Alessandra foi para a cozinha.
Naquela mesma manh, antes de Nicholas acordar, preparara diversas mamadeiras. Tirou uma da geladeira e foi at a pia.
 Voc no o est amamentando. timo. Isso simplificar tudo  Christopher falou, em p ao batente.
Alessandra lutou contra a gargalhada histrica que ameaava libertar-se.
 No, no estou.  Encheu a cuba com gua quente.
Mergulhou a mamadeira fechada ali e virou-se para encarar Christopher.
 Ele precisa ser trocado e alimentado. Quando eu terminar de aliment-lo, vamos colocar os pingos nos is.
 No vai ser fcil se livrar de mim desta vez. E digo mais: no h nada a ser esclarecido. Acho que fui bastante direto: assim que voc terminar de alimentar meu garoto, eu o levarei embora comigo.
Sentimentos variados, que iam do medo  frustrao, deixaram Alessandra indefesa, mas procurou controlar-se. No era hora de discusses, no quando tinha um sobrinho faminto a ser saciado.
Caminhou pelo corredor at seu quarto.
Aps a partida de Paula para o aeroporto, na noite anterior, Alessandra transformara a cmoda em um trocador, colocando uma toalha macia sobre a superfcie.
No era a primeira vez, desde que sua irm gmea aparecera a sua porta doze horas atrs, que Alessandra imaginava em que espcie de confuso Paula teria se metido.
Precoce e a mais jovem das duas, Paula sempre fora a filha favorita. Os pais a haviam encorajado a atingir o objetivo de ser atriz. Alessandra, mais tmida e introvertida, ficara nas sombras, desenvolvendo em silncio seu talento artstico, que a tornou ilustradora profissional de livros infantis.
Durante a adolescncia, Paula metera-se em mais apuros do que Alessandra conseguia recordar. Deliciava-se em agir sem pensar, e s vezes at mesmo correr riscos sem nem ao menos avaliar as consequncias.
Alessandra, meros dez minutos mais velha que a irm gmea, muitas vezes fora deixada para trs para remediar a situao, pacificar vizinhos furiosos ou levar a culpa por coisas que a irm fizera.
Aps graduar-se no ensino secundrio, Paula mudara-se para Los Angeles, onde trabalhara como garonete antes de fazer um pequeno papel em um filme. De l fixara residncia em Nova York para participar de um espetculo da Broadway.
Alessandra, por sua vez, ganhara um concurso escolar para frequentar a universidade de artes em Seattle. Morando em lados opostos do pas, acabaram se separando.
Paula no pudera comparecer ao casamento simples de Alessandra. A ltima vez em que viu a irm gmea foi quase dois anos antes, no funeral de rica. Aps uma breve estada, Paula retornara  Costa Leste, ainda perseguindo seu sonho de estrelato.
Embora a chegada de Paula na vspera a tivesse surpreendido, em nada comparava-se ao choque de ver a irm gmea com um beb nos braos, implorando por sua ajuda.
Naquele instante, Alessandra imaginara se estaria em meio a um pesadelo.
Os gritos de Nicholas tornaram-se mais urgentes, fazendo seus pensamentos retornarem  fora para o presente. Com movimentos rpidos, Alessandra trocou-lhe a fralda, enquanto falava com suavidade com o menino at o choro amansar.
Ao observar o rosto de anjo, notou pela primeira vez a covinha no queixo... uma minscula rplica da existente no rosto do pai.
Ajeitando a cala de Nicholas, Alessandra o ergueu, com cuidado, apoiando na mo seu pescoo e cabea. O cheiro de talco era agradvel, dominando seus sentidos e nublando suas defesas.
De sbito, lembranas barradas, recordaes de outro beb, de sua filha rica, a tomaram.
rica nascera prematura, com diversos problemas de sade, os quais a levaram  morte em apenas cinco dias.
Alessandra mordeu o lbio para deter o gemido de dor e tristeza que ameaava escapar. Piscou para afugentar o pranto, e com firmeza deu as costas ao passado, doloroso demais para ser revisado.
Virou-se e deu um pulo quando encontrou Christopher McAndrew bloqueando-lhe a passagem.
 Com licena.  Com cuidado, Alessandra evitou encar-lo, procurando, assim, evitar que ele notasse sua imensa tristeza.
 Estou impressionado, Paula.  Moveu-se para o lado, dando-lhe espao, falando com cinismo.  Voc parecia saber o que fazia. Fez algum curso sobre cuidados com crianas?
Alessandra no respondeu, e foi at a cozinha.
 Ento, diga-me: quem  o dono da casa?  Christopher no perdia um nico movimento dela.  Um de seus amigos atores... ou um antigo amante, talvez?
Alessandra o ignorou. Pegou uma toalha de sobre o balco e tirou a mamadeira da pia. Foi at a pequena sala de estar e sentou-se defronte na cadeira de balano que comprara durante sua prpria gestao.
Testou a temperatura do leite no pulso. Nicholas estava cada vez mais impaciente, retorcendo-se, inquieto e ansioso, sem dvida consciente de que o alimento estava prximo.
Alessandra apoiou o sobrinho com firmeza de encontro ao seio, e em questo de segundos a boquinha ansiosa encontrava o bico da mamadeira.
Ela fechou os olhos e soltou a respirao. Com gentileza, balanava-se para a frente e para trs, deliciando-se ao ouvir o sugar delicado de Nicholas. Um barulho que ela nunca imaginou voltar a escutar, e algo que espicaava sua alma.
Somente aps alguns minutos Alessandra aventurou-se a erguer as plpebras. O pai do beb a seguira at a sala de estar e acomodara-se na grande e antiga poltrona do lado oposto, com uma terrvel expresso de exausto.
Alessandra deixou-se observar as feies bonitas. A testa larga, o nariz reto, a boca sensual, os cabelos to pretos quanto bano, e a covinha atraente no queixo mencionada por Paula.
Tornou a fitar a criana quase adormecida. Repassou os eventos da noite anterior. Por que Paula no a advertira sobre a visita de Christopher McAndrew?
Depois que se foi, Paula no voltou a telefonar, ao menos ainda no.
Alessandra colocou a mamadeira vazia na mesinha de canto. Consultou o relgio de pulso. Passava das nove e meia.
Pousou Nicholas no ombro direito e comeou a acariciar suas costas em movimentos circulares e lentos.
Mirou o rapaz acomodado na poltrona. No havia dvidas. A descrio que Paula lhe dera de Christopher McAndrew encaixava-se com perfeio.
Adormecido, Christopher parecia menos amedrontador. Diversas mechas de fios pretos haviam cado sobre a testa, dando-lhe uma aparncia infantil. Mas bastava transferir a ateno para as sombras no queixo e maxilares para que tal idia se dissipasse.
De qualquer forma, a ameaa de Christopher McAndrew sobre levar Nicholas era definitivamente real. Alessandra sentiu um arrepio pela espinha. Deveria chamar a polcia? Mas, se fizesse isso, as autoridades seriam capazes de evitar que Christopher o tomasse dela?
Paula no lhe deixara a certido de nascimento do beb, nem nenhuma outra documentao para provar seu parentesco com a criana. Alm disso, dissera que Christopher era advogado. Todo o conhecimento acumulado no exerccio da profisso funcionaria a seu favor.
Por que sua irm no a advertira sobre a busca do pai de Nicholas? O que teria acontecido entre os dois?
De sbito, Alessandra lembrou-se dos comentrios que Christopher fizera do lado de fora da residncia, deixando implcito que Paula tinha fugido. Porm, por qu?
Era evidente que ele no sabia que Paula tinha uma irm gmea. Alessandra ficou imaginando se devia manter a informao para si, ao menos durante algum tempo.
Tornou a olhar para a figura adormecida. A simples possibilidade de passar a seu lado p ante p e escapar com Nicholas era tentadora, mas pressentia que Christopher acordaria ao mais leve movimento seu.
Decidindo testar sua teoria, segurou com mais fora o sobrinho, e, com a pulsao comeando a acelerar, levantou-se com vagar da cadeira de balano.
Mal dera um passo antes de as pestanas de Christopher se moverem, e logo o tom claro de azul encontrou o dela, bem verde.
 Vai a algum lugar, Paula?
Christopher se aprumou de imediato.
 Nicholas adormeceu. Eu ia coloc-lo no quarto, para uma soneca.
 Voc disse que o beb se chama Nicky?  Christopher levantou-se para, sem dvida alguma, barrar sua sada.
 Nicholas  corrigiu, dando um passo para trs.  No gosto de apelidos.
 Nicholas McAndrew...  Christopher parecia saborear o som do nome.
Virou-se pra a criana adormecida e sorriu de leve.
 Nicholas McAndrew. Eu gosto. Soa bem.
 Fico feliz por aprovar.  Alessandra se esforava para no deixar que ele notasse seu sarcasmo.
 Mas no h razo para colocar o menino na cama.
 Por que no?
Alessandra deu outro passo para trs. A proximidade com aquele homem deixava-a com uma forte sensao de claustrofobia.
 Porque eu o levarei comigo, para Grace Harbor.
 Grace Harbor?!  Alessandra nunca ouvira falar daquele lugar.
 Ora, Paula! No sei o que est tramando, mas no vai conseguir nada com esse joguinho. Tnhamos um acordo, assinado e selado. E se voc acha que pode retroceder agora, est muito enganada.
 Um acordo? Que acordo?
O instinto protetor de Alessandra a fez segurar Nicholas com mais fora, fazendo-o resmungar durante o sono.
Viu a expresso conturbada de Christopher diante de suas palavras e a raiva cintilar em seu olhar.
 No banque a inocente comigo, Paula! Sabe muito bem sobre o que estou falando. Se voc me der meu filho, ns sairemos de seu caminho de uma vez por todas.
Alessandra ficou fitando, assustada, os braos estendidos de Christopher. No poderia estender a criana para um completo estranho, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e deix-lo partir sabe Deus para onde.
Fizera a promessa de cuidar de Nicholas at o retorno de Paula de Los Angeles... E essa era uma promessa que pretendia manter.
 No posso fazer isso.  Alessandra se expressava com uma calma que estava longe de sentir.  Para onde Nicholas for, eu irei!
Ento, teve a satisfao de ver os olhos azuis de Christopher McAndrew se arregalarem em sinal de surpresa.

CAPTULO II

Christopher sustentou o olhar daquela que julgava ser Paula durante longos segundos. A declarao o pegou de surpresa, mas o que achava mais perturbador era o modo protetor e quase possessivo com que ela segurava o beb.
 Voc no tem de fazer uma viagem? Tenho certeza de que me falou de um compromisso, Paula. Pensei que estivesse ansiosa por retornar a Los Angeles e a sua carreira.
 No no momento  respondeu Alessandra, embora soubesse que a viagem da irm a Los Angeles sem dvida relacionava-se  retomada da carreira de atriz.  Alm do mais, como pretende tomar conta de Nicholas enquanto dirige? No vi um assento de segurana apropriado em seu automvel. Talvez esteja planejando colocar o beb no banco traseiro e deix-lo  prpria sorte.
Christopher percebeu o sarcasmo. Em sua pressa por alcanar San Francisco antes que ela voltasse a desaparecer, o nico pensamento fora encontrar o garoto. Nem de longe considerara detalhes importantes como aquele.
 E onde poderei encontrar algo assim, Paula?
 H uma loja de artigos para beb no shopping, que fica a algumas quadras de distncia. Voc poderia ir para l agora  sugeriu, satisfeita por Christopher aparentar preocupao para com a segurana de Nicholas.
 E enquanto eu estiver dirigindo e procurando por uma loja que decerto no existe, voc fugir com meu menino. No, acho que no. Mas foi uma boa tentativa tenho de admitir.
Alessandra deu de ombros. No estava mentindo. O estabelecimento mencionado localizava-se perto dali. Mas o tom de pilhria deixou evidente que ele no confiava em sua palavra. Ou, para ser mais precisa, no confiava em Paula.
Teria de fazer alguma coisa para ganhar tempo, ao menos at o telefonema da irm. Caso ela telefonasse mesmo.
Alessandra suprimiu um suspiro, desejando que Paula tivesse lhe contado mais sobre a confuso em que se metera. E a respeito do homem detestvel, furioso e cnico que era o pai de Nicholas.
 Voc no est falando srio sobre retornar a Grace Harbor, est?  Christopher a pegou de surpresa com a questo.
 Claro que falo!
 Pensei que tivesse contado os dias para sair dali.
Nicholas se remexeu nos braos de Alessandra como para lembrar a ambos de sua presena.
 Nicholas tem apenas duas semanas de vida, Christopher. Ele precisa de mim.
Alessandra percebeu a pulsao no pescoo de Christopher e notou a batalha interna que travava.
 O pequeno estar pronto em quanto tempo?  ele indagou, de repente.  Temos um longo trajeto a seguir.
 Meia hora, talvez mais.  Alessandra deu-lhe as costas e dirigiu-se ao corredor.
Christopher respirou fundo. No compreendia o comportamento dela. Parecia sincera ao dizer que o beb precisava de seus cuidados.
Tinha de ser uma encenao! Dar  luz no podia ter causado uma transformao to profunda e dramtica, despertando o instinto maternal que Paula lhe garantira no possuir.
Se tinha aprendido alguma coisa sobre aquela mulher durante os cinco meses em que ela vivera debaixo de seu teto fora que sua inteno de tornar-se uma estrela de cinema era um objetivo inabalvel.
Admitia que Paula tinha um certo grau de responsabilidade. Afinal, por que outro motivo passara pela gravidez sem abortar a criana?
Christopher suspirou. Seus pensamentos migraram para a primeira vez em que viu Paula. Ele ainda morava em Los Angeles, na ocasio. Haviam se sentado prximos ou ao outro em um jantar oferecido por um dos clientes de Christopher.
Linda e confiante, Paula o encantara com seu sorriso. E Christopher admirara sua determinao em dar-se bem como atriz.
Embora tivesse como regra evitar namorar artistas, Christopher aceitara o convite de Paula para acompanh-la a uma festa, uma semana mais tarde. Saram diversas vezes depois disso, mas perderam contato quando ele se mudou para Grace Harbor.
Mas, em uma visita a Los Angeles, voltaram a se encontrar em um dos locais favoritos de Christopher. Paula estava celebrando o aniversrio com amigas, e insistiu para que ele se juntasse ao grupo.
Em um impulso, Christopher a convidara para acompanh-lo at seu quarto de hotel. Conversaram bastante, e mais tarde ele no teve certeza de quem seduziu quem.
Quando Paula o localizara para lhe contar que carregava um filho seu no ventre, Christopher a pedira em casamento.
Ela rira e dissera um sonoro "no". Christopher, mais que depressa, percebeu que Paula tinha uma agenda prpria, uma programao que no inclua uma criana.
Foi quando seus conhecimentos de advogado tomaram a dianteira. Os dois fizeram um acordo, lutando pelos interesses do nen, estabelecendo que Paula daria a Christopher plena custdia assim que nascesse.
Christopher quisera colocar tudo por escrito para proteger o filho. O desejo ecoava de recordaes de sua prpria infncia, passada em perambulaes pelo pas com a me, que lutava para se dar bem, perseguindo o sonho do estrelato.
Passara a detestar o estilo de vida que lhe fora imposto, a instabilidade, a existncia nmade, e determinara-se a no permitir que um filho seu sofresse assim.
Paula parecera contentssima com o desejo de Christopher de assumir plena responsabilidade sobre o garoto. Assinara a papelada sem protestos, provando com sua atitude que aquilo era tudo o que gostaria que ocorresse. Garantira que Christopher no precisava se preocupar, porque no mudaria de idia.
Cumprindo o acordo, Paula se mudara para o quarto de hspedes da residncia de Christopher em Oregon para aguardar o nascimento do beb.
Seguira com rigidez a dieta rica em protenas e os exerccios regulares recomendados pelo mdico. Assim, o ganho de peso foi mnimo.
Mas isso no a impedira de queixar-se sobre a cintura que engrossava e lamentar todos os dias sobre como a gravidez arruinava suas formas.
Fora ficando cada vez mais inquieta e impaciente pelo nascimento e, conforme a data da cesariana se aproximava, Christopher acordava diversas vezes durante a noite e a flagrava falando ao telefone.
Mas tudo corria conforme o planejado, e Christopher se convencera de que Paula estaria apenas combinando seu retorno a Los Angeles.
Mas, dois dias antes do dia previsto para o parto, sem uma nica palavra de explicao, Paula desaparecera, deixando-o trmulo, confuso e muito bravo.
Christopher contratara um detetive para encontr-la. Telefonara para todos os hospitais de Oregon e Washington na tentativa de localiz-la sozinho, porm, em vo.
A nica explicao que lhe ocorrera para justificar a partida abrupta foi que Paula se arrependera e decidira manter o beb consigo.
Por mais que quisesse rejeitar tal pensamento, no conseguia afast-lo. Sobretudo aps ter testemunhado o jeito amoroso com que a vira trocando e alimentando Nicholas. E a imensa de tristeza que vira em seus olhos verdes... Aquilo o espantou.
Christopher franziu a testa. Se no soubesse a verdade, quase poderia jurar que Paula mudara, que era de fato uma pessoa diferente.
 Quanto tempo levar at... Grace Harbor?
A pergunta interrompeu as ponderaes caticas de Christopher. Virou-se e encontrou Alessandra  soleira.
 Depende do trnsito e da quantidade de paradas que fizermos por causa do beb. Se tudo correr bem, deveremos chegar tarde da noite.
 Ento, acho que Nicholas deveria ficar em um assento de carro apropriado.
 Certo. Se a loja que voc mencionou existir mesmo, compraremos um.
 Obrigada. O carrinho e minha mochila esto perto da entrada da frente.  Alessandra se ps a empacotar roupas, seu caderno para esboos e outros materiais de desenho.  Ainda preciso preparar algumas mamadeiras e juntar os pertences de Nicholas.
Foi para a cozinha. J eram quase dez horas. Se Paula mantivesse sua promessa, telefonaria em breve.
Quando Alessandra ouviu a porta sendo aberta, suspirou, aliviada. Espiou pela janela da cozinha e viu o pai de Nicholas levar o carrinho e a sacola para o automvel.
Ento o silncio foi rompido pelo soar do telefone. Alessandra o atendeu, rpido, com a pulsao acelerada.
 Al!
 Alessandra? Ol! Sou eu.
 Paula! Estou to feliz por voc ter telefonado!
 Algo errado?
 O pai de Nicholas est aqui. Pelo menos alega ser o pai de seu filho. Chegou do nada esta manh.
Esticou o fio do aparelho a fim de poder observ-lo perto da varanda.
 Christopher est a, Alessandra? S pode estar brincando!
 No  uma brincadeira, Paula, acredite em mim.
 Sim. Mas como? Descreva-o.
 Descrev-lo?
Alessandra observou em pnico Christopher fechar o porta-malas.
 Ele  conforme voc disse.  E em poucas palavras falou como Christopher era.
  Christopher, sem dvida alguma.
 Falou que veio buscar Nicholas para lev-lo embora consigo.
Alessandra apressava-se em relatar os fatos, mantendo o olhar atentos em Christopher.
  hostil e arrogante, e falou algo sobre vocs dois terem um acordo. De que espcie, Paula? O que Christopher quis dizer?
 O que voc lhe contou?  Paula ignorou sua indagao.
 Que Nicholas no iria a lugar algum sem mim. Christopher continua me chamando de Paula. No sabe que voc tem uma irm gmea?
Paula ficou quieta por um momento, e Alessandra sabia que a irm estava tentando arquitetar alguma estratgia.
 Est dizendo que Christopher pensa que voc sou eu, Alessandra?
 Isso mesmo. Tentei explicar, mas ele no quis me ouvir.
Christopher se aproximava do lado do motorista.
 Talvez vocs devam conversar, Paula. Diga que apenas estou cuidando do beb at seu retorno.
 No... no  uma boa idia.
 Voc no quer que eu entregue o nen para ele, quer?  Alessandra parecia atnita com a falta de preocupao da irm para com o prprio filho. A quietude de Paula a alarmou.
 Voc ainda est a?
 Estou, Alessandra.
 O que est acontecendo? H algo que no me contou, Paula. Fugiu desse homem? Christopher abusava fisicamente de voc?
Talvez fosse essa a explicao plausvel para o estranho comportamento dela.
 No! No, no  nada disso  Paula garantiu.  Mas Christopher  muito controlador. Disse-me que era melhor eu me esquecer da carreira de atriz e falou que, se eu insistisse, lutaria comigo para obter a custdia de Nicholas. E faria tudo o que estivesse em seu poder para me impedir de ver meu filho outra vez.
 Oh, mas que horror! O que quer que eu faa?
 Ajudaria muito saber que voc cuidar de Nicholas, Alessandra. Faria isso por mim?
 Ficarei com ele, prometo.
 E se voc pudesse enganar Christopher...
 Engan-lo? Por qu?
 Se lhe contar quem , ele na certa levar o beb. No poderia sustentar a situao s por algum tempo? Pelo bem de seu sobrinho. At que eu possa conversar com um advogado para aconselhar-me em como proceder.
 Est bem, Paula  Alessandra, com relutncia, acabou concordando.
 Agradeo muito, querida. Isso significa muito para mim, pode acreditar. Olhe, preciso ir. Entrarei em contato. Sei onde encontr-la.
 Espere...
Mas a irm j havia desligado.
Com vagar, Alessandra recolocou o fone no gancho. Houve algo na voz de Paula que julgou muito perturbador.
 Com quem voc estava conversando?
A apario de Christopher a assustou. A indagao se intrometeu em seus pensamentos e a fez enrubescer.
 Com ningum. Discaram o nmero errado  conseguiu falar com naturalidade.  Christopher, se vamos parar na loja de artigos para bebs, poderamos comprar algumas latas de leite e outro pacote de fraldas.
 Voc no acha que est levando essa encenao de me dedicada longe demais?
 No sei o que quer dizer.
 Est bem, Paula, vamos brincar  sua maneira. Coloquemos este espetculo em cartaz.
Alessandra fechou a sacola com utenslios para criana e a estendeu para Christopher.
 Vou buscar Nicholas.
Ao esticar o brao, os dedos de Christopher roaram nos dela, deixando-a arrepiada. Alessandra encontrou seu olhar glido e impassvel.
Virou-se e foi para o quarto. Encontrou Nicholas deitado em seu leito, adormecido. Com delicadeza pegou o nen e o envolveu no cobertor. Apanhou as chaves de sobre a cmoda e deixou o aposento.
 Sua amiga confia muito em voc. At lhe deu seu prprio molho de chaves  comentou Christopher depois que Alessandra trancou a porta.
Ela no emitiu nenhuma resposta ao se aproximarem do carro. Christopher abriu a porta do passageiro para ela e, com grande cuidado, Alessandra acomodou-se com sua carga preciosa no assento de couro.
Estendeu a mo para pegar o cinto de segurana e viu-se encarando um par de olhos azuis.
 Deixe-me fazer isso, Paula.
Alessandra prendeu a respirao. O aroma da colnia era muito msculo.
No instante em que Christopher virou-se e fechou a porta, Alessandra voltou a respirar normalmente e aguardou que seu corao voltasse ao ritmo normal, admoestando-se por tal reao.
 Qual o caminho para o shopping center?  Christopher perguntou momentos mais tarde ao acomodar-se atrs do volante.
 Pegue a primeira rua  esquerda e ver o estacionamento trs quarteires adiante.
Aps meia hora, Nicholas estava em segurana, acomodado sobre seu novo assento para automveis.
Alessandra consultou o relgio do painel, calculando que muito em breve teria de trocar e alimentar Nicholas.
Permaneceu em total quietude enquanto seu companheiro dirigia, seguindo sinais para entrar na rodovia que os levaria ao norte.
Durante a breve conversa com Paula, Alessandra nem mesmo pensara em perguntar  irm sobre Grace Harbor ou sua localizao.
Observara que a placa do carro de Christopher era de Oregon, e um nome como Grace Harbor parecia ser de uma localidade  beira-mar. Por mais que ansiasse por indagar a Christopher, entretanto, decidiu que o silncio era a melhor poltica.
Desviou a ateno para o trnsito na rodovia atribulada e comeou a relaxar, apreciando o conforto e luxo oferecidos pelo automvel. At passou a considerar o trajeto agradvel, sabendo que isso devia-se s habilidades de Christopher ao volante.
Muito diferente de Glen, seu ex-marido, Christopher McAndrew era um motorista bastante competente, o que inspirava confiana ao passageiro, e no ansiedade.
Christopher, pelo jeito, no se perturbava com os pobres hbitos  direo de seus companheiros motoristas.
Em vez de gritar e fazer gestos para o sujeito que fez uma manobra perigosa, decidiu-se por ajustar a velocidade.
Christopher... Christopher McAndrew. Era um belo nome, decidiu Alessandra. Slido e forte, igual ao dono.
Paula dissera que Christopher era controlador, e Alessandra com facilidade simpatizara com a irm. Fora casada com um rapaz que tentara dominar cada um de seus passos, e sabia muito bem o quanto isso era desagradvel.
Entretanto, embora Christopher tivesse sido rude e arrogante, exigindo que seu filho lhe fosse entregue, e sua atitude em relao  mulher que acreditava ter dado  luz o menino fosse ultrajante, Alessandra no conseguia culp-lo, porque testemunhara o amor e compromisso que Christopher sentia em relao ao beb.
Qual seria o acordo que Christopher mencionara? Qual o contedo?
Suprimindo um suspiro, Alessandra se virou para o banco traseiro para dar uma olhada em Nicholas, maravilhando-se com seu bom comportamento. O garotinho ainda dormia.
 Nicholas est bem?
 Sim.  Alessandra sorriu.
 Ele dorme muito. Mas deve ser normal.
 Recm-nascidos costumam dormir bastante, Christopher. Porm, tambm tm seus momentos de pura agitao. rica teve um momento desses...  Parou de falar de repente, dando-se conta, horrorizada, do que dissera.
 rica? Quem  rica? Alessandra engoliu em seco.
 Era uma criana de quem fui bab  improvisou.
 Ora...  Christopher ergueu uma sobrancelha, ctico.  Como Nicholas est dormindo, voc poderia me dizer o motivo de ter fugido?
A mudana de assunto pegou Alessandra desprevenida. No fazia idia de como responder.
 No.  Ela rezava para que ele no insistisse naquilo.
Mas a expresso de Christopher deixou claro que sua inteno era oposta.
 Partiu porque mudou de idia sobre o que combinamos, Paula?
Alessandra observou-lhe o perfil e notou a rigidez em seu semblante. Por que parecia temer sua resposta?
E que acordo seria aquele, afinal de contas? Arrependia-se por no ter insistido por uma explicao detalhada de Paula antes de concordar em participar da encenao.
 O gato comeu sua lngua?
Christopher a olhou de modo desafiador antes de retornar o fitar a pista.
Alessandra nada disse. Observou as mos que seguravam com firmeza o volante. S ento notou a aliana na mo esquerda de Christopher. Seu corao disparou ao constatar o significado daquela jia.
Que jogo bizarro sua irm estaria travando? Por que Paula no mencionara que ela e Christopher McAndrew eram casados? Por que no a advertira que teria de fazer o papel de uma falsa esposa?!

CAPTULO III

O trajeto estava sendo agradvel e sem percalos. Fizeram diversas paradas ao longo do caminho para trocar e alimentar Nicholas, incluindo uma em Portland, para jantarem.
Enquanto aguardavam que os hambrgueres chegassem, Nicholas comeou a se mexer, inquieto. Alessandra ficou surpresa quando Christopher ofereceu-se para segur-lo.
Ele sustentou seu olhar em silncio desafiador e, mais do que curiosa de ver como lidaria com o filho, Alessandra lhe estendeu o beb.
Observou, admirada, Christopher fazer um movimento circular nas costas do menino. Quando apoiou Nicholas na curva do pescoo e beijou o alto de sua cabea, Alessandra sentiu um n na garganta de emoo, e lgrimas ameaando rolar.
Glen no se importara em ficar por perto tempo suficiente para ver a filha. Mesmo antes de Alessandra descobrir que estava grvida, j suspeitava de que o marido tinha um caso.
Encontrava-se na metade da gravidez quando o mdico lhe informara dos problemas, relatando-lhe que a menina nasceria com a sade muito debilitada e, portanto, poucas chances de sobrevivncia.
Glen descontara a raiva e frustrao nela, culpando-a o tempo todo por tudo, antes de partir em busca de novas aventuras.
Alessandra nem sequer considerara interromper a gestao. Lutara sozinha, tentando aceitar a dura realidade de que seu beb no sobreviveria.
Depois que rica nasceu, Alessandra insistira em lev-la para casa, e os mdicos, com relutncia, concordaram. As recordaes daqueles poucos dias to preciosos que passou com a filha fizeram-na capaz de trabalhar a culpa e o pesar, e at mesmo lhe deu fora para prosseguir.
Atravs das pestanas semicerradas, Alessandra observou Christopher acalmar o choro do filho, ninando-o com delicadeza e murmurando palavras suaves.
Admirou sua capacidade de permanecer calmo diante dos gritos de Nicholas e impressionou-se por no se inquietar diante dos olhares de outros clientes do restaurante.
Quando sorriu para o menino, a expresso de amor de Christopher despertou antigos desejos em Alessandra e lhe causou uma dor no peito. Procurou concentrar-se no hambrguer que a garonete acabara de trazer.
 No  tarde demais.  A voz de Christopher cortou o silncio.
Franzindo a testa, Alessandra o encarou.
Desculpe-me, no entendi.
Se est reconsiderando, posso lev-la at Portland e deix-la na rodoviria  declarou com frieza e indiferena.
Alessandra manteve-se tranquila.
No deixarei Nicholas.  Ento, pde captar o cintilar de respeito naquele olhar.
Mais tarde, depois que Nicholas adormecera nos braos paternos, Christopher acabou de comer. E ento, enrolando a criana adormecida no cobertor, pagou a conta, e foram para o carro.
Continuaram a jornada para o norte sem conversar. Logo o calor do aquecedor deixou Alessandra sonolenta. Incapaz de lutar contra o cansao, adormeceu.
Quase uma hora mais tarde, a mudana no ritmo da jornada a despertou. Ergueu as plpebras e percebeu que j no estavam mais na estrada.
Havia escurecido, o que tornava impossvel ver a rea campestre a rode-los. Por um segundo, entrou em pnico, e seu corao disparou.
Nem fazia idia de para onde estavam indo. Nem do que esperar quando chegassem a Grace Harbor. Nem mesmo sabia se poderia ou deveria, aps ver a aliana no dedo de Christopher, continuar fingindo ser sua irm gmea.
Alessandra virou-se para estudar a silhueta de Christopher. Sem dvida consciente de que ela havia acordado, lanou-lhe um olhar de soslaio. At mesmo na escurido do interior do carro Alessandra teve uma sensao inquietante.
No mesmo instante virou-se para a janela lateral, constatando que Christopher era um dos homens mais atraentes que j vira.
Mas aparncias podiam ser decepcionantes. Glen Nelson tambm era um homem atraente, mas, por detrs da aparncia dinmica, existia um ser humano egosta e possessivo.
Glen fora um de seus instrutores na universidade de arte que frequentara. Era um artista bastante conhecido no ramo, por isso Alessandra sentira-se lisonjeada por sua ateno e elogios a seu trabalho.
Embora Glen fosse vinte anos mais velho, Alessandra se apaixonara, e, quando ele lhe pediu para acompanh-lo a um espetculo artstico na cidade, aceitou de imediato.
Tinham tantos interesses em comum, ou assim Alessandra imaginou, que se sentira confortvel e  vontade a seu lado. Seis meses depois, casaram-se em uma capela simples,  qual compareceram apenas os pais dela e a irm de Glen.
Quase desde o instante em que a cerimnia terminou Glen mudou. Pouco demorou at Alessandra perceber que ter uma esposa muito mais jovem alimentava a vaidade j exacerbada dele.
Glen adorava apresent-la aos amigos e colegas como se Alessandra fosse um trofu. No se preocupava com os sentimentos dela, de modo algum.
Aborrecida com o rumo que seus pensamentos tomavam, Alessandra resolveu impedir as lembranas de continuarem a atorment-la. Por entre as rvores, avistou, a distncia, luzes cintilando.
Enfim, o arvoredo terminou, revelando uma pequena comunidade que devia ser Grace Harbor. Observou a luminosidade, que dava a impresso de gotas de prata cintilando e ondulando ao sabor do luar.
O mar! Claro! Tinha de estar olhando para o poderoso e magnfico oceano Pacfico.
 Que lindo!
 Pensei que voc detestasse o mar, Paula. Alessandra admoestou-se em silncio pelo lapso. O que Christopher disse era verdade. Desde que Paula cara de um barco  vela durante uma tempestade, na adolescncia, quase se afogando, passou a detestar o oceano.
 Estava apenas admirando a vista  murmurou, lembrando-se de que, embora ela e a irm tivessem as feies quase idnticas, as preferncias e personalidades eram opostas.
 Entendo...  Christopher, sem dvida, zombava dela.  Acho que h uma primeira vez para tudo.
De novo, o ceticismo imperava. Christopher no parava de trat-la com animosidade e ironia. Ou melhor, a Paula, sua mulher e me de seu filho.
Houve ocasies durante o longo trajeto para o norte em que Alessandra se sentiu tentada a dizer a verdade, revelando a Christopher que no era Paula. Mas, cada vez que fitava o perfil srio, sua coragem evaporava.
Precisava recordar o plano de Christopher de lutar pela custdia do filho e de sua ameaa em tirar Nicholas de Paula. Eram esses os motivos para prosseguir com a farsa at a irm contratar um advogado.
E embora Alessandra no concordasse, nem aprovasse o que estava sendo forada a fazer, queria dar  gmea o benefcio da dvida, confiando que Paula pensava nos melhores interesses para a criana.
Tornou a mirar o homem a seu lado. A preocupao de Christopher com relao a Nicholas parecia genuna, mas procurou pensar na facilidade com que Glen disfarara sua natureza autoritria atravs de um sorriso charmoso.
Alm do mais, de nada serviria revelar sua verdadeira identidade. Isso, decerto, resultaria na exigncia de Christopher para que ela retornasse a San Francisco. E Alessandra sabia que no poderia abandonar Nicholas ou voltar atrs na promessa que fizera a Paula.
Viraram para a direita, o que fez Alessandra tornar a vislumbrar o cenrio. Observou as casas espraiadas ao longo da rua, notando que o automvel galgava uma colina. Desejou que no fosse to escuro para ter uma viso melhor da regio.
No topo, Christopher fez uma manobra, e foram at o final da via, onde os imveis pareciam maiores e mais isolados.
Em poucos instantes, Christopher adentrava uma passagem para carros. Quando parou, luzes da construo foram acesas, e a luminosidade intensa cegou momentaneamente Alessandra.
Conforme sua viso se ajustava, foi notando enormes portas duplas de garagem bem  frente. Christopher as abriu com o controle remoto.
 Nicholas precisar ser alimentado antes de voc coloc-lo no bero, Paula?
  provvel. Mas voltar a dormir.
Christopher desligou o motor, e, na penumbra do interior do veculo, Alessandra virou-se em sua direo. Seus olhares se cruzaram durante longos segundos.
Alessandra, de sbito, deu-se conta de um fato novo. Seu corao disparou em pnico ao atentar para um pequeno detalhe: se estava fazendo de conta que era a mulher de Christopher, com toda a certeza teria de levar aquela encenao maluca at o quarto...
Deu a costas a ele e buscou o trinco, aconselhando-se a permanecer calma. Aquele era um problema fcil de resolver. Insistiria em dormir no dormitrio de Nicholas, e ponto final.
Alm do mais, raciocinou rpido, se a raiva e hostilidade de Christopher eram genunas, duvidava que ele fosse discutir.
Alessandra desafivelou o cinto de segurana de Nicholas e, com delicadeza, tirou-o do assento. O menino se remexeu e resmungou em protesto; ento, suspirou e apoiou a cabea de encontro ao seio de Alessandra.
Ela fechou a porta e virou-se para ver Christopher com a sacola de fraldas sobre o ombro. Ele girou a chave na fechadura, e entrou na residncia.
Fingindo uma confiana que estava longe de sentir, Alessandra o seguiu para dentro. Quando Christopher parou para apertar o interruptor, quase colidiram.
Logo, Alessandra se viu em uma cozinha espaosa e cintilante. No centro havia uma mesa grande, e sobre o tampo uma tigela com frutas de cristal.
Ela, num timo, contemplou os armrios brancos e o balco salmo. Cortinas, da mesma cor do balco, ornavam as janelas acima da pia.
Christopher colocou a sacola sobre o balco e virou-se para Alessandra.
 O que acha de levar Nicholas para o quarto, Paula? Aquecerei a mamadeira e a levarei para o andar de cima.  Abriu um armrio perto da pia e tirou um utenslio.
 Est bem.
Alessandra olhou para a sada a sua esquerda e para a escurido adiante, avistando outro batente. Qual seria o caminho para a escadaria?
Nicholas comeou a protestar, e pulsao de Alessandra acelerou-se. Antes que pudesse fazer um movimento, Christopher aproximou-se.
 Algo errado?
 No.  Mas no se moveu.
Os resmungos de Nicholas transformaram-se em gritos.
 Preciso da sacola com fraldas, Christopher, s isso. Vou troc-lo primeiro.
 Est bem.  Christopher entregou-lhe a sacola e pegou a ltima mamadeira com leite.
Alessandra hesitou, imaginando um modo de fazer com que Christopher lhe mostrasse o caminho que deveria seguir.
 Oua, Christopher, por que no leva Nicholas para seus aposentos e o troca?  No lhe passou despercebia a expresso de surpresa dele.  Bem, se voc no quiser...
Alessandra deixou as palavras soarem vagas, no fundo rezando para ele aceitar o desafio.
Christopher sustentou o olhar, como se tentando ler seus pensamentos, parecendo bastante desconfiado.
 Eu farei isso.
Em trs passos, cruzou a distncia entre eles. Ao pegar Nicholas, sua mo roou no seio de Alessandra, deixando-a arrepiada.
Para seu alvio, Christopher j se movia pela escurido  esquerda. Acendeu a luz, revelando a escadaria.
Alessandra soltou aos poucos a respirao at ento suspensa, tentando convencer-se de que nada sentira durante aquele toque. Fora apenas impresso.
Sozinha, supervisionou a cozinha mais uma vez, e em uma tentativa de familiarizar-se com o ambiente abriu diversas portas, registrando o contedo.
Encheu uma tigela com gua quente e colocou a mamadeira de Nicholas para ser aquecida. Sabendo que Christopher estaria envolvido demais trocando o beb para notar o tempo que ela levava, decidiu explorar o piso trreo.
Ao lado de onde estava, havia uma sala de jantar de tamanho mdio, com uma linda mesa de carvalho e oito cadeiras entalhadas. Uma grande cristaleira mostrava pratos, porcelanas e ornamentos. Na outra parede viu elegantes portas-balco. Sentia-se tentada a aventurar-se do lado de fora, mas no ousou.
Naquele ambiente existiam dois degraus largos, que conduziam  sala de estar. A parede mais distante era toda tomada pela lareira de granito, diante da qual havia um enorme sof de couro verde-escuro, uma namoradeira combinando e poltronas na cor creme.
A explorao de Alessandra foi interrompida por um som abafado vindo de cima. Passando apressada pelo tapete cor de areia, tirou a mamadeira de Nicholas da gua quente, secou-a e foi para as escadas. J no topo, olhou para a direita. Havia trs portas, todas abertas.
Parou por um momento, esperando escutar um choro ou gemido que a conduzisse ao aposento do beb.
Aproximou-se do primeiro e ouviu uma cano de ninar.
Christopher estava sentado na cadeira de balano, ninando o filho, murmurando uma cano que tocava na caixa de msica sobre o bero.
Um som suave chamou a ateno de Christopher, que olhou para cima e viu Alessandra ao batente.
Levantou-se e carregou Nicholas at o bero. Ajeitou o pequeno cobertor sobre o menino, sentindo o corao resplandecer de amor. Nicholas estava no lar ao qual pertencia, e nada mais importava.
 Ele adormeceu.  Christopher se voltou para encar-la.  Acho que no estava com fome.
 Com toda a certeza acordar com bastante fome daqui a mais ou menos uma hora.  melhor eu preparar mais mamadeiras. Esta  a ltima.
 Vou ajud-la.
 Obrigada, mas posso cuidar disso sozinha.
Christopher aproximou-se, procurando manter a raiva controlada.
 Eu disse que a ajudaria, Paula. Preciso saber como preparar o alimento de Nicholas, porque ambos sabemos que  apenas questo de tempo at voc tomar o primeiro nibus para Los Angeles.
 No...  Alessandra protestou, dando um passo para trs.
 No sei qual  seu jogo, Paula, ou o motivo de ter resolvido voltar para c.  Olhou para a mo dela.  Vejo que descartou a aliana que lhe dei. No combinava com seu estilo, no  mesmo? Quero que escute e muito bem o que vou dizer: Nicholas ficar aqui comigo. Foi o acordo que fizemos. Lembra-se?
Ficou encarando Alessandra, num claro desafio para que negasse o que afirmara. Mas tudo o que pde ver nas profundezas daqueles olhos cor de esmeralda foram dor e pesar. Uma expresso que, sem que quisesse, o tocou, e sem que notasse, se infiltrou em sua alma.
Ela estava fingindo. As emoes que via no eram verdadeiras. "Paula  uma atriz, e muito boa, por sinal."
Mas no conseguia abrandar a sensao de que havia algo diferente nela, alguma coisa que no sabia decifrar.
 Vou ficar, Christopher.  Alessandra ergueu o queixo.  Quantas vezes terei de dizer isto para que acredite em mim?
A tenso entre os dois tornou-se quase palpvel. Christopher viu-se lutando contra a vontade de tom-la nos braos e beij-la.
Entretanto, antes que pudesse seguir o impulso, o telefone tocou, rompendo o momento.
 Com licena  Christopher pediu, apressando-se em direo ao quarto, no sabendo se estava aliviado ou aborrecido pela interrupo.  Al!
 McAndrew! Quem fala  Gregory Dunsford.
 Gregory! Ol!  Christopher sorriu.
Por causa de toda a excitao de ter localizado Paula e Nicholas, esquecera-se do detetive que contratara para traar seu paradeiro.
 Achei melhor ligar para voc, Christopher. Recebeu o recado que deixei em sua secretria eletrnica na noite passada.
 Recado? No... Do que se trata?
"Nem tive tempo de verificar, se quer saber."
 Poucas horas aps meu telefonema de ontem, quando lhe contei que a havia encontrado, Paula tornou a desaparecer. Eu segui o txi at o Aeroporto de San Francisco e liguei para voc dali...
 No compreendo. O que quer dizer? Voc a seguiu at o aeroporto?
 Paula deixou o endereo que lhe entreguei em San Francisco e pegou um txi para o aeroporto, Christopher. Mas dessa vez no levou a criana consigo.
 No o qu?  Christopher passou a mo pelos cabelos, cada vez mais confuso.
 Consegui uma passagem para o mesmo vo, ento telefonei e lhe deixei o recado. Assim que chegamos a Los Angeles, tive problemas em segui-la. Acabei perdendo-a no trnsito.
 Perdendo Paula? Sobre o que est falando, Gregory?  Christopher no sabia o que pensar.
"Gregory deve ter tomados uns tragos..."
 Achei que Paula estivesse indo para o centro da cidade, e tive sorte aps verificar alguns lugares. Estou feliz em lhe dizer que consegui,localiz-la de novo. Ela est aqui em Los Angeles, registrada no Hotel Plaza.
 Quem est em Los Angeles, Gregory?
A cabea de Christopher girava, e ele comeava a imaginar se estaria participando de uma comdia de absurdos.
 Paula Preston, claro! Voc me contratou para localizar sua mulher, a me de seu filho!

CAPTULO IV

Christopher recolocou o fone no gancho, bem devagar, os pensamentos em torvelinho. Desabou sobre a cama e, com cotovelos nos joelhos, inclinou-se e passou ambas as mos nos cabelos. O que estava acontecendo, afinal de contas?
Tentou encontrar sentido no que ouvira. Gregory devia ter cometido um erro. Paula estava no andar de baixo.
A mulher que Gregory seguira para Los Angeles tinha de ser algum parecida com Paula. Na certa amiga atriz e provvel a dona da casa em San Francisco. Percebendo que algum a seguia, Paula devia ter pedido  amiga para fazer seu papel a fim de despistar Gregory e ganhar algum tempo.
Era a nica explicao lgica. Sem desejar correr riscos, Christopher instrura Gregory a manter a moa que julgava ser Paula sob observao e inform-lo das novidades.
Enquanto isso, curiosidade e desconfiana fizeram Christopher querer obter algumas respostas sobre a dona da casa em San Francisco.
Pegou o telefone e ligou para seu colega de universidade, Damian DeMarco, um investigador do Departamento de Polcia de San Francisco, que, sabia, gostava de trabalhar por conta prpria tambm.
Investigador DeMarco  a voz familiar do amigo fez-se ouvir.  Como posso ajud-lo?
Ei, DeMarco! Ainda no o promoveram a capito?
 Christopher! Rapaz, como vai? Aposto que me telefonou para dizer que est na cidade.
 No, nada disso. Minha inteno  lhe pedir um favor. DeMarco riu.
 Eu devia ter previsto... Est bem, diga.
 Se lhe der um endereo em San Francisco, voc poderia verificar quem  o dono da casa para mim e descobrir tudo o que puder?
  um caso para o qual est trabalhando?
 De certo modo.  E Christopher lhe deu o endereo.
 Acho que posso fazer uma investigao discreta, se  o que quer, Christopher. Est tranquilo por aqui esta noite. Cuidarei do assunto agora mesmo, e lhe darei um retorno amanh.
 timo. E, por favor, entre em contato no escritrio, sim, DeMarco? Obrigado, camarada. Eu lhe devo esta.
Christopher sentiu-se feliz por ter feito tudo o que pde.
Alessandra estacou na cozinha ao ouvir passos indicando que Christopher desligara o aparelho.
Depois que ele se apressara para o quarto para atender  ligao, ela aproveitara a oportunidade para dar uma espiada dentro do aposento que ficava ao lado oposto ao do beb.
Era grande e espaoso, com um banheiro adjacente. Notando seu desalinho, Alessandra concluiu que algum recentemente o usara.
Aventurou-se adiante e abriu a porta do armrio. Descobriu uma variedade de vestidos, blusas e calas compridas, algumas para gestantes, roupas que deviam pertencer a sua irm.
Percebeu que Paula estivera dormindo no quarto de hspedes, e pde apenas presumir que nos ltimos estgios da gravidez e sem considerao pelo marido, mudara-se para aquele dormitrio.
Retornara para a cozinha, ocupando-se em preparar mamadeiras para Nicholas. Mas, conforme os minutos foram se arrastando sem que houvesse sinal de Christopher, comeou a se preocupar e a divagar. Ser que Paula telefonara? Ou talvez o advogado dela?
 Desculpe-me, eu no pretendia demorar tanto. 
Alessandra teve um sobressalto quando a aproximao silenciosa de Christopher interrompeu suas conjecturas. Ficou tensa, esperando que anunciasse saber qual sua identidade e lhe desse um sermo irado. Exigiria que fosse embora, sem sombra de dvida.
 Fui trancar a garagem e trouxe sua mochila, Paula. Deixei-a ao p da escadaria. Vejo que terminou de preparar as mamadeiras de nosso filho.
 Sim.
 timo. Voc poder me mostrar como se faz da prxima vez. No sei a seu respeito, mas eu gostaria de uma bebida. O que acha?
Apanhada de surpresa, Alessandra lhe lanou um olhar tenso.
Ah... No, obrigada. Nicholas acordar em breve, e estou cansada. Acho que vou para a cama.
Assim que pronunciou a ltima frase, a pulsao de Alessandra acelerou. Ficou imaginando se Christopher acharia que ela o estaria aguardaria no leito... Em seu quarto de casal.
Enrubescida, apressou-se em esconder o rosto.
Christopher viu a face de Alessandra tingir-se de prpura e notou que ela se afastava. Franziu a testa e estendeu os dedos para abrir o armrio sobre a geladeira, e tirou uma garrafa de conhaque.
 No precisa se preocupar com Nicholas. Tomarei conta dele quando acordar.
 No  preciso, Christopher.  Alessandra rodeou o pequeno balco, aumentando a distncia entre os dois.  Posso fazer tudo sozinha, sem problema algum.
 Voc no est levando essa rotina de me devotada longe demais?
O olhar implacvel demonstrava que ele, cada vez mais, a queria longe.
 Eu... no sei o que quer dizer.  Alessandra deu-lhe as costas.
Quanto menos Christopher pudesse ver de suas emoes, melhor seria.
Entretanto, o pai de seu sobrinho reparou no brilho de pnico nas ris verdes.
"Cus, algum pode me dizer o que estava acontecendo?! Paula parece mesmo desconcertada." E aquilo no era algo que testemunhara com frequncia.
Estudou-a por um momento. Alguma coisa estava errada. Baixou a cabea e serviu-se de uma dose da bebida forte.
Levou o copo ao nariz, inalando o aroma do lquido dourado. E, por fim, Christopher percebeu o que havia de diferente nela.
Aquela linda jovem diante dele no usava maquiagem. No havia rmel para escurecer os clios muitssimo longos, as faces no mostravam os maxilares salientados, e o batom vermelho-escuro no enfatizava os lbios sensuais. Surpreendeu-se por no ter percebido antes.
Durante o tempo em que a me de seu beb ficou em sua casa, aprendera muito a seu respeito. E no ficara bem impressionado. Ela era uma pessoa voltada to somente para seus interesses pessoais. Uma egosta empedernida.
Paula nunca erguera um dedo para fazer alguma tarefa do lar. Christopher tivera de cozinhar e limpar, bem como ouvir suas queixas constantes. Reclamaes sobre a vida aborrecida que ele levava, sobre como detestava Grace Harbor e reclamaes sobre a cintura que se expandia.
Quando no estava murmurando como tudo era enfadonho, Paula passava o tempo lendo os ltimos mexericos e escndalos nos tablides.
Quando Christopher comeara a pintar o quarto do beb, imaginou que Paula demonstraria algum interesse.
Enganara-se. O prprio Christopher escolhera a combinao de cores, o bero e a cmoda, bem como todo o enxoval.
Comprara diversos livros sobre gravidez, os quais descreviam em detalhes o crescimento e desenvolvimento da criana, desde a concepo. Devorara cada slaba, fascinado pelo milagre que ajudara a criar. Mas Paula, sem o menor constrangimento, os ignorara.
Houve vezes em que Christopher ficou imaginando o que vira nela, como fora capaz de se sentir atrado por algum to superficial e centrada em si mesma.
Virou-se para observar a mulher em p mais adiante. Seu olhar pousou no semblante. A pele tinha um brilho saudvel, e o rosto em formato de corao era difcil de ser ignorado. Perturbado, tomou um gole do conhaque.
Ainda no conseguia compreender o motivo de ela estar ali.
 Sabe, Paula, no precisa fingir para mim. No h necessidade de continuar com essa farsa.
 Que farsa?!
Christopher percebeu o tremor dela e, pela segunda vez, captou a incerteza em seus, gestos.
 Fizemos um acordo, Paula, tenha isso em mente. Voc concordou em dar-me plena custdia de nosso filho. E no venha me dizer que fugiu porque mudou de idia. No acreditarei por um minuto sequer. Vamos, Paula, por que no me diz de uma vez por todas o motivo de estar aqui?  dinheiro o que quer? Que jogo est tramando?
Alessandra ficou plida, e Christopher percebeu. Diversas emoes conflitantes, que no conseguia decifrar, passaram em segundos pelos olhos verdes.
A vontade de Christopher fora provocar uma resposta irada, na esperana de que o espetculo lhe revelasse algo. Qualquer coisa.
Em vez disso, porm, ela parecia magoada com aquilo que dissera, como se se sentisse agredida. Era evidente a dor e a confuso de Alessandra, e isso Christopher nunca imaginou que a me de seu menino fosse capaz de sentir.
 Acordos podem ser rompidos  ela disse, aps uma pausa.
A frase, formulada com incrvel suavidade, fez o sangue de Christopher gelar nas veias.
Aquilo no podia estar acontecendo! Sua mulher, que ansiava pelo dia em que o beb nascesse para que pudesse deixar Grace Harbor e voltar a sua carreira de atriz, estava em p, diante dele, com uma determinao tal que o deixava inseguro.
 O que est dizendo?  Christopher conseguiu manter a entonao calma, e tentou, com dificuldade refrear a raiva que crescia em seu peito.  Mesmo que ao dar  luz seus instintos maternos tenham despertado, Paula, ambos sabemos que no vai durar. Isso deve-se apenas aos hormnios, minha querida, porque lhe garanto que, em uma semana, talvez duas, voc estar ansiosa por retornar s luzes brilhantes dos palcos. Quantas vezes disse-me que o pensamento de trocar uma fralda suja ou acordar no meio da noite para atender a um beb faminto a deixava com os nervos  flor da pele?
 Eu estava enganada, Christopher. Fiz tudo isso e sobrevivi. Alm do mais, uma mulher no pode mudar de opinio?
Atnito, Christopher no conseguia pensar em nada para dizer.
 Foi um longo dia. Vou me deitar, preciso de repouso.  Alessandra, sem esperar por resposta, saiu.
Christopher ficou esttico, como se arraigado no lugar. Seria possvel que uma garota como aquela mudasse de maneira to drstica em um espao de tempo to curto assim?
Por mais que quisesse afastar a idia, havia algo em sua voz e em seu olhar que ele no podia ignorar.
Tomou o restante da bebida. Por um breve momento, sentiu-se tentado a destruir o copo na pia em uma tentativa de dar vazo  frustrao que o dominava.
O que mais temera estava acontecendo. Paula retornara porque mudara de idia. Queria ficar com Nicholas, afinal!
Alessandra acordou em um sobressalto, o corao disparado. Sentou-se e mirou ao redor do quarto nada familiar. Onde estava? Aquele no era seu dormitrio! Nem aquela sua cama!
O som de um beb chorando rompeu o silncio, e a lembrana do dia anterior de imediato aflorou.
Nicholas!
Consultou o relgio digital  cabeceira. Meia-noite e meia. Jogou as cobertas para o lado, ficou em p e, com rapidez, foi para a porta.
Dera apenas um passo para o corredor na penumbra quando colidiu com um homem slido, quente e seminu.
 Oh!
 Desculpe-me, Paula! Voc est bem?  Christopher segurou seus braos para equilibr-la.
 Sim, obrigada  Alessandra conseguiu afirmar, embora estivesse sem flego.
Conforme sua vista se ajustava  escurido, flagrou-se contemplando a musculatura precisa do peito de Christopher.
Um arrepio intenso percorreu sua espinha. Ergueu a cabea para encontrar os olhos azuis. Sentia uma forte e indisfarvel atrao.
Foi ento que os gritos de Nicholas pareceram mais altos e urgentes. Os dois reagiram simultaneamente e acabaram trombando um no outro de novo.
Dessa vez, as mos de Alessandra apoiaram-se no trax nu de Christopher. Sentiu a quentura daquela tez. A maciez e o contato prolongado a deixaram excitada.
 Desse jeito Nicholas nunca ser alimentado  Christopher falou, bem-humorado.
 Perdo...
 O que acha de aquecer a mamadeira enquanto eu o troco, Paula?
 Est bem.  Alessandra ficou contente por colocar uma distncia segura entre eles.
No andar trreo, colocou a mamadeira em uma tigela com gua quente, durante o tempo todo recordando-se daqueles momentos de contato fsico.
Parecia fazer sculos desde que sentira a fora e o conforto dos braos de um homem. No havia percebido o quanto sentia falta at o presente momento.
Aborrecida com o rumo de seus pensamentos, admoestou-se em silncio. No poderia sentir atrao por Christopher. A idia era inconcebvel.
Resolveu se concentrar no comentrio de Christopher sobre Paula ter concordado em lhe dar a custdia de Nicholas.
No podia ser verdade! Podia? A irm lhe contara que Christopher ameaara brigar com ela pela guarda do filho. Um dos dois tinha de estar mentindo. Mas quem?
Alessandra ficara deitada acordada durante horas, ponderando sobre o assunto. Nunca esperou abrir a porta da frente de sua casa e encontrar Paula  soleira com um beb recm-nascido no colo.
Casamento e filhos no constavam das prioridades de Paula, mas sua irm estava casada e era me de um lindo e saudvel beb. Alessandra no podia aceitar que sua gmea tivesse concordado em desistir da criana.
Quaisquer que fossem os problemas enfrentados por Paula e Christopher no matrimnio, era bvio que Nicholas era quem mais tinha a perder.
Decidiu que o melhor seria aguardar at ter notcias de Paula. Enquanto isso, evitaria mais confrontos com Christopher. E, sobretudo, toc-lo...
Testou a temperatura do leite e subiu os degraus.
Christopher estava com Nicholas nos braos, perambulando de um lado para o outro no dormitrio. Uma expresso de alvio desanuviou sua expresso quando Alessandra apareceu.
 O beb est faminto. Seu clculo de tempo foi perfeito.  Christopher apanhou a mamadeira que lhe era estendida.
Quando os dedos de Alessandra roaram nos dele, outro arrepio intenso a tomou.
 Nicholas dormiu por mais tempo do que previ  comentou, enquanto Christopher se aproximava da cadeira de balano e se acomodava.
Hipnotizada, Alessandra apoiou-se no batente, observando Christopher acomodar o filho em uma posio confortvel contra si. Em questo de segundos, os sons familiares da criana sugando o alimento podiam ser ouvidos com nitidez.
 No precisa ficar supervisionando  Christopher lhe disse, baixinho.  Garanto-lhe que sou capaz de alimentar meu filho.
Alessandra o encarou.
 Eu no estava...
 Ou est a por outro motivo?
Alessandra perdeu o flego diante do tom sensual com que a frase foi pronunciada. Christopher pensava que ela era Paula, sua irm gmea: E me do filho dele!
Fitou a camisola que protegia apenas at metade das coxas e percebeu que podia culpar apenas a si mesma pelo brilho de especulao nas pupilas de Christopher.
 No pretendia... Christopher, voc no pode...Divertido, Christopher sorriu.
Alessandra, em silncio, culpou-se por tal reao. Sem falar mais uma palavra sequer, foi embora. Mas, antes de virar-se, no deixou de perceber o sorriso de triunfo do cunhado.
Cinco horas mais tarde, Alessandra estendeu a mo para desligar a msica que vinha do radiorrelgio. Dessa vez, lembrou-se muito bem de onde estava e ficou imvel,  espera de um som que delatasse que Christopher ou Nicholas haviam acordado.
A casa estava em absoluto silncio.
Tomou um banho rpido e colocou a cala jeans e o suter largo que usara na vspera. Prendeu os cabelos em um rabo-de-cavalo frouxo e foi, p ante p, para o quarto de Nicholas.
Sorrindo, observou o beb adormecido. Tinha certeza de que o menino acordaria a qualquer minuto. Enquanto o observava, sentiu um n na garganta e o aperto familiar no corao. Nicholas era to lindo, to perfeito e saudvel!
Alessandra imaginou se por um momento ao menos Paula dera-se conta de como era afortunada por ter dado  luz um menino saudvel.
Nicholas estendeu os bracinhos e comeou a resmungar. Antes que desse incio ao choro ansioso de sempre, Alessandra inclinou-se sobre ele e o tomou nos braos. Ninou-o contra o ombro e, sussurrando, procurou acalm-lo.
Aps trocar e alimentar o beb, colocou-o de volta no bero e foi para a cozinha. Pegou trs ovos, uma poro de po e um pacote de caf, e comeou a preparar o desjejum. Em pouco tempo, o aroma tentador tomava conta do ambiente.
 J alimentou Nicholas?
O som da voz de Christopher fez Alessandra virar-se.
Prendeu a respirao  viso dele, com os cabelos ainda molhados do banho, recm-barbeado, o corpo esguio em um terno acinzentado de trs peas, camisa branca e gravata. Parecia um modelo fotogrfico.
Alessandra teve de lutar para demonstrar naturalidade.
 Sim.
"Voc no pode esquecer, nem por um minuto, de que Christopher  marido de sua irm!"
E que homens com boa aparncia, charmosos e muitssimo sensuais no mereciam confiana.
  cheiro de caf o que eu estou sentindo, Paula? O que voc est fazendo?  Christopher deixou a maleta sobre a mesa.
 O desjejum. Gostaria de um ovo mexido? Christopher arregalou os olhos, com evidente espanto.
 Est se oferecendo para fazer comida para mim?! Alessandra, muito tarde, deu-se conta de que cometera um erro. Sabia que as habilidades de Paula com as panelas eram bastante limitadas, e, pela atitude de Christopher, no era difcil deduzir que sua irm no tivera o hbito de se preocupar com a boa alimentao do marido.
 Pensei em tentar, Christopher.
 Obrigado. Comprarei alguma coisa a caminho do escritrio.
 Certo.  Alessandra virou-se para o fogo.
Tinha conscincia do olhar de soslaio que Christopher lhe lanou. Com o corao disparado, focou sua ateno em quebrar um ovo.
Ficaria grata quando ele partisse para trabalhar. Sua presena era muito perturbadora.
 E ento, Paula, diga-me: por quanto tempo pretende ficar aqui? Ainda estar por aqui quando retornarmos?
 Claro que estarei. No deixaria Nicholas.
 Ah... mas, veja bem, no  essa a questo. Porque Nicholas ir comigo.
Assustada, Alessandra se voltou, e deparou com a expresso divertida dele.
 O qu?!
 Tenho certeza de que no falei em grego, Paula. Disse que Nicholas ir para o escritrio comigo. Voc no pensava que, aps seu sumio, eu seria tolo o bastante para deixar meu filho aqui, em sua companhia, no ?

CAPTULO V

Alessandra procurou absorver as palavras duras de Christopher. Sustentou seu olhar, determinada a no deixar transparecer o quanto estava abalada.
No pode estar falando srio.
Enfrente a realidade, Paula. Ambos sabemos que, no instante em que eu der as costas, voc pegar a estrada com meu filho outra vez.
Alessandra engoliu em seco. No poderia discutir nem culp-lo por pensar o pior, devido as circunstncias. Mas, antes que pudesse responder, o telefone comeou a tocar.
Christopher virou-se e agarrou o fone da parede prxima  geladeira.
Al! Sim, Sally. O que h de novo?
Prestou ateno por um momento, e Alessandra observou sua expresso se alterar.
Tem razo, eu me esqueci da reunio. No, no a cancele. Foram necessrios meses para que as duas partes concordassem em se encontrar comigo.  Christopher consultou o relgio de pulso.  Poderei chegar a a tempo se partir de imediato. Obrigado pelo lembrete, Sally. Eu a verei no escritrio, mais tarde.
Christopher desligou o aparelho e virou-se para a mesa.
 Quanto demorar para Nicholas estar pronto?  indagou ao abrir a maleta.
 Pretende levar o menino com voc para a reunio?
 No tenho escolha, tenho?
 Sim, tem. Deixe Nicholas aqui comigo. No  justo acord-lo agora.
Christopher ajeitou alguns papis.
 S pode estar brincando! Voc desapareceu sem deixar rastro antes de o beb vir ao mundo, e espera que confie que no ir fugir com meu garoto de novo? Ora!
Alessandra conseguiu manter-se tranquila, determinada que estava a no reagir diante da exploso de ira. Sua mente disparava, buscando uma sada para o impasse.
 Estou pensando em Nicholas.  Resolveu ignorar o esgar de descrena de Christopher.  No  justo romper com os horrios do menino.  apenas um beb, afinal. Como espera tomar conta dele e conduzir uma reunio ao mesmo tempo? Duvido que seus clientes queiram ouvi-lo chorar.
Christopher hesitou. Tinha de admitir que ela estava coberta de razo. Nos livros que lera sobre o assunto era citada a importncia de ser mantida uma rotina, sobretudo no incio da vida do beb.
Levar Nicholas para seu trabalho poderia funcionar em outra circunstncia, mas no quando seus clientes estavam no meio de um divrcio amargurado, lutando pela custdia da criana de dois anos de idade. A presena de Nicholas no ajudaria em nada a solucionar o caso.
 E se eu lhe prometer que Nicholas e eu estaremos aqui quando voc voltar?
Christopher encarou-a, e assim permaneceu, por longos minutos. Poderia confiar na palavra dela? A me de Nicholas parecia sincera, e sua preocupao pelo nen, genuna.
 Estaremos aqui. Eu prometo  repetiu Alessandra, lendo a indeciso no rosto dele.
 Est bem.
Christopher rezou para no estar cometendo outro erro, caindo em outra encenao.
 Mas telefonarei assim que chegar  reunio, e de hora em hora.  melhor que esteja aqui, Paula.
A Alessandra no passou despercebida a ameaa velada, mas procurou no absorv-la. Durante seu casamento de trs anos com Glen, ele com frequncia usara tticas semelhantes sempre que ela se opunha a sua opinio.
 Estarei aqui. Minha palavra  uma s.
Christopher fechou a maleta. Quieto, de semblante carregado, deu-lhe as costas e saiu. Alessandra ouviu a porta que conduzia  garagem ser fechada, e minutos mais tarde o motor do automvel foi acionado.
Suspirando, aproximou-se do fogo. O ovo havia queimado, e a torrada esfriara. Aps limpar a panela, foi para o andar superior dar uma olhada em Nicholas, e depois voltou  cozinha.
Colocou caf em uma xcara e apoiou-se no balco, deixando sua memria repassar a conversa. Se Paula fugira poucos dias antes de o filho nascer, podia compreender a pouca confiana que Christopher depositava nela.
O que teria feito sua irm gmea agir assim? Rememorou os instantes diante de sua casa em San Francisco, quando Christopher parou defronte ao carrinho de beb.
Compreendia agora o motivo de ele ter parecido embasbacado. Fora a primeira vez que pousara os olhos no filho!
A expresso de amor ao observar Nicholas fora genuna, e at conseguiu suavizar os vincos de raiva que at ento maculara o rosto bonito.
Mas a questo permanecia. Por que Paula fugira? A resposta s podia estar relacionada a sua carreira. No havia outra explicao.
Alm do mais, Paula fizera algo similar no final da adolescncia. "Tomara emprestado" o carto de crdito da me para comprar uma passagem area para Nova York e, durante quarenta e oito horas, seus pais quase enlouqueceram de preocupao.
Ento, Paula ligara, muito animada, para lhes contar sobre o espetculo de estria na Broadway que vira, e a respeito das diversas horas em que ficara aguardando atrs do teatro para conseguir o autgrafo dos atores na programao do espetculo.
Alessandra balanou a cabea. Duvidava que um dia fosse entender a motivao de sua irm. Mas, quando Paula voltasse entrar em contato, planejava fazer-lhe algumas indagaes bastante importantes.
Como se ouvindo seus pensamentos, o aparelho tocou, rompendo o silncio reinante. Alessandra sentiu-se enregelar. Poderia ser Paula?
Ao segundo toque, moveu-se, derrubando gotas de caf morno nas mos.
Pousou a xcara no balco e pegou uma toalha. Atendeu  chamada, por fim:
 Al?
 Por que demorou?
A entonao profunda de Christopher, numa mescla de zanga e alvio, lhe causou um calafrio. "Se continuar me arrepiando tantas vezes por dia por causa dele, vou acabar me transformando num abacaxi."
 Por nada. Eu atendi, no  mesmo?  Alessandra se aborreceu com o tom imperativo dele, bem como com o disparar de sua pulsao.
 Mas como vou saber que Nicholas no est sentado no carrinho de beb neste momento preparado para partir? E como saberei que voc no telefonou para um txi que possa lev-los para a rodoviria no instante em que eu desligar?
Alessandra suprimiu um suspiro, imaginando por que se importava tanto com a opinio daquele homem.
 Fiz uma promessa, Christopher. E pretendo cumpri-la.
Houve uma pausa que pareceu durar uma eternidade.
 Ligarei em meia hora. Esteja a!  E ento Christopher desligou.
Alessandra, com vagar, recolocou o aparelho no gancho e concentrou-se em acabar de limpar o lquido derramado.
Arrumou a cozinha e foi para o andar de cima dar uma olhada em Nicholas.
Em p ao lado do bero, contemplou o beb. Era agradvel observar o suave subir e descer daquele peitinho. Seus olhos ficaram rasos d'gua e formou-se um n em sua garganta.
Durante a breve existncia de rica, Alessandra passou bastante tempo observando a filha dormir. Insistira em levar a menina para casa, com teimosia, opondo-se  sugesto do mdico de mant-la atada a maquinrios apenas para postergar o que todos sabiam ser inevitvel.
Por mais difceis que aqueles dias tivessem sido, Alessandra nunca se arrependeu de sua deciso. Pde abraar e alimentar a menina, dar-lhe amor e ateno, e ento chorar amargurada quando o coraozinho de rica parou de bater.
Alessandra enxugou uma lgrima do rosto e saiu do quarto sem fazer rudo. Ocupou-se em arrumar seu leito, verificando mais uma vez os itens deixados por Paula no armrio e na pequena cmoda.
Deu mais uma olhada em Nicholas antes de prosseguir pelo corredor at os aposentos de Christopher. Disse a si mesma que o que estava prestes a fazer no era espionagem nem invaso de privacidade.
Observaria o dormitrio de Christopher na simples tentativa de descobrir mais sobre o homem com o qual sua irm se casara. O pai de seu sobrinho.
A sute principal era muito espaosa, com uma cama de casal gigantesca contra a parede, uma escrivaninha de trabalho com um computador e um enorme guarda-roupa antigo e espelhado do outro lado.
Era asseado, e os lenis encontravam-se amarfanhados. As paredes foram pintadas de azul-claro, e a cortina e colcha tinham padres em diversos tons de azul e verde.
O piso era de madeira e coberto com tapetes ovais: um verde-escuro, outro azul-marinho, outro prpura.
Na mesinha-de-cabeceira estava um aparelho telefnico e um despertador. E numa das paredes, um quadro mostrando a praia e o mar.
O cheiro de pinho e menta mesclava-se a outro, sem dvida alguma masculino. Alessandra se arrependeu de sua investigao. "Estou me saindo uma bela bisbilhoteira..."
No instante em que ameaava sair, o telefone tocou. Tinha de ser Christopher verificando se estava ali. Aproximou-se da mesa e pegou o fone.
 Al!
 Estou apenas verificando.
 Ainda estou aqui  respondeu Alessandra, sentindo a pulsao disparar ao aspirar o aroma delicioso, mais forte por estar prxima  cama onde Christopher dormia.
 Continue assim.  E desligou.
Enquanto Alessandra recolocava o aparelho no gancho, ouviu sons de Nicholas reclamando e, satisfeita, deixou o aposento.
Aproximou-se do menino e acionou a caixinha de msica.
Nicholas pareceu entretido, ouvindo a cano. Alessandra aproveitou para encher a pequena banheira com gua quente e pous-la sobre o trocador.
No sabia qual seria a reao do garoto. Achou que talvez fosse chorar, mas, quando Nicholas comeou a mexer as perninhas na gua, Alessandra sorriu. Falando com muita suavidade para acalm-lo, com gentileza passou mos midas por seu corpo.
Minutos mais tarde, tirava-o do banho e o enrolava em uma toalha macia. Aps sec-lo, pousou-o no bero, e ps-se a procurar pelas peas de beb nas gavetas.
Ficou imaginando se Paula havia organizado o quarto e comprado as roupas para o filho. De alguma maneira, entretanto, no conseguia pensar em sua irm fazendo compras para quem quer que fosse a no ser ela mesma. Ento, restava Christopher. Ser que ele tinha feito tudo? A idia a intrigava.
Escolheu um macaco azul-claro com um ursinho bordado nas costas. Vestiu-o, deixou Nicholas deitado e foi para o andar trreo.
O telefone voltou a tocar.
 Ainda estou aqui  disse ela, sem prembulos.
 Como?
 Desculpe-me! Eu pensei que fosse...  Alessandra parou de falar, assim que percebeu que no era Christopher quem ligara.
 Paula? Voc est de volta! Mas que bom!  disse a mulher do outro lado da linha.
 Ah... Bem, sim. Quero dizer...
 E Maggie. Maggie O'Connor. Lembra-se de mim?
 Sim... Claro  mentiu Alessandra, esperando ter sido convincente.
 Christopher est a?
 No. Tinha uma reunio bem cedo esta manh.
 Quando retornaram? Christopher foi busc-la e ao beb?
 Sim, na noite passada.
Alessandra tentava imaginar o que Christopher contara a seus amigos e vizinhos sobre o desaparecimento da esposa grvida.
 Ele estava to preocupado e ansioso por ter vocs dois a seu lado... Devo admitir que nos surpreendemos quando soubemos que voc decidiu no ltimo instante ter o filho na casa de sua me.
Alessandra resolveu no fazer comentrio. Ento fora assim que Christopher explicara a situao...
 Como est voc, Paula? E mais importante: o beb est bem?
"Maggie, no faz a menor idia do que se passa por aqui!"
 Estou bem, Maggie, obrigada. E Nicholas tambm, graas a Deus  acrescentou, desejando que aquela conversa terminasse.
 Nicholas...  este o nome que acabaram escolhendo?
 Sim. Em homenagem a meu av.
 Eu gosto, Paula. Christopher falou que vocs no conseguiam se decidir. Oua, eu estava de sada. Haveria algum problema se eu passasse para conhecer seu filhinho?
 Imagine... Por que no? Ser bem-vinda  Alessandra deixou suas palavras soarem vagas, incapaz de pensar em um motivo para dissuadi-la.
 Maravilha! Veremo-nos em poucos minutos.
Alessandra apoiou-se na parede, o corao disparado.
Por que no fora Christopher ao telefone? Talvez devesse ligar para ele. Mas como poderia? No sabia o nmero de onde ele estava. Alm do mais, seu cunhado no estava no escritrio, e sim em uma reunio.
Alessandra se virou e passou a mo pelos cabelos, tentando conter o pnico. Qual seria o grau de relacionamento entre Maggie e sua irm gmea? Ser que seria capaz de perceber que ela no era Paula?
Talvez notasse que no usava aliana. Se comentasse alguma coisa, deveria dizer apenas que precisava ajustar o tamanho do anel.
Tentou permanecer calma, afirmando a si mesma que, se Paula no contara a Christopher que tinha uma gmea, era improvvel que tivesse dito a outra pessoa.
Quando a campainha tocou, dez minutos mais tarde, Alessandra forou um sorriso simptico. Cruzou os dedos e respirou fundo.
 Paula! Ol! Sua aparncia est tima!  a jovem ao batente sorriu, calorosa, para Alessandra.
Maggie O'Connor baixou o capuz da jaqueta para revelar cabelos escuros na altura do ombros. Seus olhos eram castanhos e lmpidos, parecendo muito sinceros.
 Christopher deve estar maravilhado em ter voc e o beb de volta.
 Ah... Sim. Obrigada.  Alessandra no sabia mais o que dizer.
 Lembra-se de Dylan Jnior?  Maggie fitou com curiosidade e afeto o beb que trazia sentado no carrinho.
 Sem dvida...
 No acha que ele cresceu?
 Acho.  Alessandra conseguiu sorrir para a criana.
 Tem apenas cinco meses de idade, mas seu peso  o de um beb de oito  Maggie mal continha o orgulho maternal.
 Ele  lindo.  Alessandra falava com sinceridade, e riu quando Dylan acenou as mozinhas em sua direo, muito contente.
 Nicholas est dormindo, Paula?
 Creio que sim, Maggie. Oh, desculpe-me! Vocs no vo entrar?
 Obrigada. Estou ansiosa por v-lo.
Maggie inclinou-se e tirou Dylan do carrinho, seguindo Alessandra para o saguo.
 Nicholas est no bero. Vocs poderiam subir para dar uma olhada.  Alessandra tinha esperana de distrair Maggie e evitar mais perguntas.
 Poderamos?
Alessandra conduziu-os at o quarto do sobrinho.
Para deleite de Maggie, Nicholas estava acordado. Enquanto Alessandra trocava sua fralda, a visitante tagarelava, perguntando-lhe sobre o parto e o nascimento.
Alessandra forneceu-lhe as respostas o mais breves e vagas quanto possvel. Descreveu seu prprio trabalho de parto e, aps dar mais alguns detalhes, desviou a conversa para Dylan Jnior.
 Gostaria de uma xcara de caf?  ofereceu um pouco mais tarde, aps terem descido a escadaria.
 Fica para outra vez, Paula. Dylan e eu estamos a caminho da quitanda.
  mesmo? Precisamos de alguns itens tambm. Christopher esqueceu de fazer compras.
 Que tal ir conosco? Ou Nicholas precisa ser alimentado?
Alessandra hesitou e deu uma olhada para o relgio. Passava pouco das dez.
 Ele estar bem por mais uma hora.
Sua preocupao no era para com Nicholas, e sim com Christopher, que em breve telefonaria para ver se ela no havia fugido de novo. Mesmo assim, precisavam dos suprimentos.
 Iremos  quitanda com vocs, caso no haja problemas.  Alessandra decidiu, com alegria, que uma sada rpida como aquela lhe daria oportunidade de habituar-se um pouco a Grace Harbor.
Christopher ouviu, numa fria silenciosa, o som do telefone tocando em sua residncia. No sexto toque, a secretria eletrnica atendeu e ele, enlouquecido, bateu com fora o fone.
"Eu sabia! Como pude acreditar em Paula?!" Aps todas as promessas, ela escapulira. Fora um tolo em confiar naquela mulher. Um idiota em crer em qualquer coisa que dissera. Mas houve algo em sua voz e em seu olhar...
Paula no podia ter ido longe. E quando a encontrasse...
Christopher apanhou a maleta e saiu da sala. Sally Cooper falava ao telefone. Colocou a mo no bocal.
 Sr. McAndrew, o investigador DeMarco est na linha. Vai atender  ligao?
Christopher parou. Esquecera-se do telefonema de Damian.
 Sim, atenderei.
Virou-se e tornou a entrar na sala.
 DeMarco? Ol! O que descobriu?
 Pouca coisa. Pelo menos nada remotamente suspeito ou criminoso.
 Diga-me o que ficou sabendo.  Christopher conteve a custo um suspiro de frustrao.
 Esta manh estive no endereo que voc me deu, mas a casa estava vazia. Conversei com a vizinha, que me disse que a residncia pertence a Alessandra Nelson. Foi parte do acordo de divrcio. E, pelo que ouvi, ela fez bem em se livrar do marido.
 Alessandra Nelson?  O nome nada significava para Christopher.  Algo mais?
 De acordo com a vizinha, a srta. Nelson  ilustradora de livros infantis. O ex-marido  artista. Oua isto: Alessandra estava grvida de quatro meses quando o sujeito foi embora. Pelo que entendi, o beb morreu menos de uma semana aps o nascimento.
Christopher ponderava aquelas informaes, tentando decidir se eram ou no significativas.
 Isso  tudo, DeMarco?
 Temo que sim, Christopher. Ah, espere! No sei se  importante ou no, mas a vizinha mencionou que viu a irm da srta. Nelson chegar com um beb duas noites atrs. A propsito, voc sabia que so gmeas idnticas?
Christopher parou de respirar. Gmeas! De repente, tudo passou a fazer sentido. Mas Paula nunca mencionou ter nenhum parente. Pensou que fosse sozinha no mundo. Se Paula tinha uma irm gmea idntica, ento...
 Ei, camarada, ainda est a?  a voz de Damian cortou seus pensamentos caticos.
Christopher soltou a respirao.
 Ainda estou, Damian.
 Quer que eu continue investigando?
 No. Mas obrigado. Voc ajudou muito.
 Sempre que precisar, conte comigo.
Christopher agradecer e, devagar, desligou.
Gmeas! Gmeas idnticas! Incrvel...
Recordou-se daqueles momentos, quando pousou os olhos pela primeira vez no carrinho de beb. Nem dera um segundo olhar para Paula. Estivera hipnotizado pela alegria de descobrir que o filho estava seguro.
Mas a reao de espanto dela diante de sua apario e o comportamento subsequente o deixaram confuso. Entretanto, naquele momento afastara a impresso.
O detetive particular que contratara sem dvida seguira Paula at a residncia da irm, onde ela deixou a criana aos cuidados da gmea antes de ir para Los Angeles.
E a mulher que Christopher confrontara, aquela que o acompanhara at Grace Harbor e tomava conta de seu filho, com toda a certeza era a irm gmea de Paula!
Christopher releu o nome que escrevera com pressa em um papel sobre a escrivaninha. Alessandra Nelson.
Ela o fez cair como um patinho em sua mentira, o que apenas podia significar que era to inconsequente quanto Paula.
Pegou a folha e saiu s pressas.
 Sally, h algo que preciso fazer. Cuide de tudo por aqui, por favor.
 Pode deixar...

CAPTULO VI

Christopher dirigiu para casa to depressa quanto a lei de trnsito permitia. Decidira dar uma olhada na casa primeiro, na esperana de que Paula... ou Alessandra... tivesse estado ocupada dando um banho em Nicholas para atender ao telefonema.
Chegando l, encontrou a porta destrancada. Entrou e subiu a escadaria, dois degraus por vez.
 Paula? Voc est a em cima?  gritou ao aproximar-se do quarto do filho.
Sua pergunta foi recepcionada pelo silncio. O dormitrio estava vazio.
Virou-se e voltou para o trreo, onde tudo parecia estar conforme de manh. Completou o circuito at a sala de jantar e de estar, e retornou  entrada.
O que temera e suspeitara estava acontecendo. Eles haviam partido.
Condenando-se pela prpria estupidez em confiar nela, apressou-se para o carro. J se acomodava atrs do volante quando notou duas mulheres caminhando pela rua, cada qual empurrando um carrinho de beb.
Reconheceu as feies familiares de Maggie de imediato, e a seu lado...
Uma sensao de extremo alvio o tomou ao ver Paula. "No, a identidade daquela moa ainda precisa ser confirmada."
Com o corao disparado, observou-as se aproximando. A julgar pelo modo como Maggie tagarelava e sorria, era bvio que acreditava estar falando com Paula.
Mas Maggie encontrara a me de Nicholas apenas algumas vezes. Tentara tornar-se sua amiga, mas Paula declinara todos os convites para visitas e passeios.
Christopher franziu a testa. A distncia, a jovem parecia-se muito como Paula. Ser que a informao de DeMarco sobre ela ter uma irm gmea era equivocada? Chegava o momento de descobrir.
 Ol, meninas.  Christopher rodeou o carro para encontr-las.
 Christopher! Que bom v-lo!  cumprimentou Maggie, muito alegre.  Paula no falou que voc viria almoar aqui.
 Quis fazer-lhe uma surpresa.  Christopher lanou a Alessandra um olhar desafiador, e captou a expresso de culpa em seus olhos verdes.
 Caminhamos at a quitanda para comprar algumas frutas.  Maggie, pelo jeito, no percebera a tenso.  Oh, Christopher, Nicholas  um beb to doce e adorvel! Aposto que est muito feliz em ter seu filho e sua esposa de volta ao lar.
 "Feliz" no descreve sequer o comeo de como eu me sinto.
Christopher procurou curvar os lbios no que esperava parecer um sorriso.
Alessandra notou o maldisfarado sarcasmo de Christopher e, ao encar-lo, sentiu a raiva que parecia fluir em ondas em sua direo. A intensidade do olhar dele a deixava apreensiva.
Sabia o motivo de Christopher ter se abalado at ali naquele horrio e a razo de estar to enfurecido, porm, tambm pressentia algo diferente que no podia definir.
 Telefonei esta manh para saber como voc estava, Christopher. Tomei um susto quando Paula atendeu. Insisti em vir conhecer o filho de vocs. Foi um encontro adorvel, no  mesmo, Paula?
 Sim, claro que foi, Maggie. Espero que possamos repeti-lo  acrescentou, com polidez.
 Eu tambm. Embora eu adorasse ficar para conversarmos mais,  melhor levar meu filho embora e aliment-lo. Mas oua, Christopher: agora que Paula e Nicholas esto de volta, talvez possamos nos reunir uma noite dessas.
 Parece uma idia maravilhosa! Que tal neste final de semana?
 Bem, Christopher... Seria timo.  Maggie hesitou por um instante, estranhando a aquiescncia to repentina.  Mas voc deveria falar com sua mulher primeiro. Quando se tem uma criana to novinha  preciso fazer alguns ajustes. Acredite em mim, eu sei do que estou falando.
Maggie se virou para Alessandra, compreensiva e cmplice.
 O que acha, querida?  Christopher perguntou.  Gostaria de se distrair um pouco?
Alessandra sentiu a pulsao acelerar-se diante do comentrio carinhoso.
 Claro, Christopher. Ser excelente. O que acha de sbado, Maggie?
 Est bem. Mas...
 Ento est combinado.  Christopher se inclinou para pegar Nicholas no colo.
Atrs dele, Alessandra continuava sorrindo. Tinha a ntida impresso de que Christopher marcara o encontro para ver como reagiria. Mas, se o surpreendeu ao aceitar com tranquilidade, ele nada deixou transparecer.
 Perfeito! Falarei com voc amanh, Paula  disse Maggie, e, com um aceno, afastou-se.
Alessandra tirou as sacolas com mantimentos da parte inferior do carrinho e seguiu Christopher para dentro. Assim que fechou a porta, ele se virou para encar-la.
 Antes que voc diga qualquer coisa, Christopher, sinto muito por no estarmos aqui quando...
 Realmente!
 Sei que no devia ter ido com Maggie at a quitanda mas no havia leite, suco... na verdade, nada mais na geladeira. Tinha apenas duas mamadeiras para Nicholas. Pensei que voltaramos a tempo. Sinto muito  repetiu, com ansiedade.
Se Christopher precisava de uma prova de que aquela mulher no era Paula, acabava de ter. No se recordava de Paula ter lamentado pelo que quer que fosse. E, ao ouvir o pedido de desculpas no uma vez, mas duas, no espao de poucos minutos, acabou obtendo a confirmao do que comeara a suspeitar durante a conversa com Maggie.
 Voc parece sincera.  Ao estudar suas feies com mais ateno, Christopher notou diversas diferenas no rosto bonito que nem havia percebido antes.
Tais detalhes, admitia agora, ele ignorara por estar cego de raiva de Paula.
Os cabelos da garota a sua frente eram um pouco mais longos e escuros. Os lbios, mais cheios e sensuais, e podia haver algumas sardas no nariz. O que mais o impressionava, entretanto, era a nota de tristeza em seu olhar, que tinha o poder de causar uma estranha dor no corao de Christopher.
DeMarco no dissera algo sobre a irm de Paula ter perdido um beb? Uma tragdia assim poderia gerar a melancolia que testemunhava. E tambm explicava o motivo de a jovem lidar com Nicholas com tamanha confiana e eficincia.
Christopher lembrou-se da cena no quarto da casa em San Francisco, quando a observou trocar a fralda do menino. Julgara-se diante de uma pessoa totalmente diferente. E tivera razo.
 Falei com sinceridade.
As palavras dela confirmando o pedido de desculpas penetraram nos pensamentos distrados de Christopher. Foi ento que ocorreu-lhe que aquela moa, que lhe parecia to familiar, era na verdade uma estranha. E no a me de seu filho.
Estava confuso e irado, mas conteve o impulso de exigir uma explicao. Nicholas comeou a remexer-se em seus braos.
 Ele est com fome e precisa de uma troca de fraldas  Alessandra observou.
 Eu farei isso.  Christopher sentiu-se aliviado por ter uma chance de ficar um pouco sozinho para absorver a mudana to brusca nos eventos.
No dormitrio de Nicholas, despiu-o e comeou a troc-lo.
As conjecturas iam e vinham. Por que Paula solicitara a ajuda da irm? Deviam estar planejando algo, tinha certeza.
O desenvolvimento bizarro parecia confirmar sua suspeita de que Paula mudara de idia sobre dar-lhe a custdia do beb.
Ficou esttico por um momento, e um arrepio passou por sua espinha. Olhando para o filho, sentiu lgrimas nos olhos  simples possibilidade de perd-lo. Uma pontada doloridssima, que nunca sentiu antes, pareceu querer dilacerar suas entranhas.
Renovou seus votos de fazer qualquer coisa que estivesse em seu poder para manter Nicholas ali, em Grace Harbor, onde poderia providenciar-lhe todo o amor, estabilidade e segurana que merecia receber.
O impulso de confrontar a mulher que fingia ser Paula e exigir que lhe dissesse o que planejavam insuflou-o de novo. Mas refreou o mpeto, decidindo que o melhor era no agir. Aguardar o momento certo era a melhor soluo.
Alessandra ocupava-se em separar os itens adquiridos enquanto aquecia a mamadeira para Nicholas. No podia culpar Christopher por estar bravo, mas houve algo perturbador no modo como a fitou. Como se estivesse tentando ler sua alma...
Era bvio que o casamento de Paula com Christopher passara por muitos problemas. Por que outro motivo a irm teria fugido dias antes de o beb nascer? E, desde seu retorno, Christopher no fizera objees a Alessandra ocupar a sute vizinha, nem tentara reconciliar-se.
Mas, pelo que vira de Christopher, ele se preocupava de verdade com o filhinho, e era possvel que, por detrs de tamanha ira, ainda se importasse com Paula, a me da criana.
Alessandra sabia, atravs de sua breve mas dolorosa experincia de casamento, que a vida em comum no era sempre um mar de rosas. Podia apenas desejar que Paula recobrasse o bom senso e, pelo bem das duas pessoas mais importantes de sua existncia, deixasse de lado as ambies para salvar seu relacionamento antes que estivesse to deteriorado que no houvesse mais soluo.
 Aqui estamos.  Christopher interrompeu os pensamentos de Alessandra.  Nicholas deve estar faminto. Est tentando sugar o dedo.
 Quer dar-lhe de mamar?  Alessandra testou a temperatura do leite na parte interna do pulso.
 Eu adoraria, mas preciso voltar ao escritrio.
 Pensei... quero dizer, voc no...
 No, no o levarei para o trabalho comigo, se  o que est tentando saber. O beb j teve momentos de muita instabilidade nestes dias.
Alessandra engoliu em seco.
 Obrigada  conseguiu dizer ao aproximar-se para pegar Nicholas dos braos do pai.
Christopher entregou-lhe o menino. Ainda tentava aceitar o fato de que aquela mulher no era Paula. Mas tinha certeza de que o bem-estar de Nicholas era a preocupao principal dela.
Devia ter percebido que algo faltava quando a confrontou diante da residncia em San Francisco. Mas estivera to emocionado por ter encontrado o garotinho que no conseguira atentar a nada mais.
Inclinou-se para a frente e deu um beijo na testa de Nicholas.
 Estarei de volta em torno das seis horas.
 Estaremos aqui  Alessandra garantiu, num sussurro rouco.
O cheiro da colnia aps a barba assanhava seus sentidos.
Com um aceno de cabea, Christopher virou-se e se afastou.
Alessandra soltou a respirao. Durante alguns segundos, teve a tola impresso de que Christopher iria beij-la. A sensao de ultraje e decepo por isso no ter acontecido a assustava.
Nicholas gemeu, chamando sua ateno.
Alessandra alimentou o sobrinho e depois o acomodou no bero. Precisando distrair-se, pegou caderno, lpis e outros utenslios da mochila e foi para o ar livre.
Ficou em p  amurada e observou o jardim negligenciado. Um tapete fino de folhas em tom vermelho, dourado e marrom, cadas das rvores que rodeavam a propriedade, cobria a grama.
Arbustos, os favoritos de Alessandra, circundavam o quintal, e ela ficou imaginando qual seria a cor de suas folhas na primavera.
O sol j baixava no horizonte, vindo a esconder-se atrs de nuvens acinzentadas. A temperatura de outubro cara, tornando fria a atmosfera e trazendo a promessa do inverno.
Mas o frio em breve foi esquecido quando o olhar de Alessandra pousou na vista panormica atrs do jardim. Por sobre as copas das rvores podia ver um infindvel panorama de dunas de areia e, mais adiante, o mar resplandecente, brilhando e cintilando ao sabor dos ltimos raios solares.
Abriu o caderno e logo preencheu diversas pginas, recriando as imagens diante de si.
Alheia  baixa temperatura, ficou to absorvida no que fazia que no ouviu o telefone tocar. Mas o barulho insistente acabou rompendo sua concentrao e, em pnico, se apressou para dentro.
 Al?
 Onde estava?
 Do lado de fora, Christopher.
 No est um pouco frio para Nicholas estar ali?
 O beb est adormecido no andar de cima. Apenas fui at o jardim durante alguns minutos.  E ento, se virando para o relgio sobre o fogo, percebeu que estivera fazendo esboos por quase uma hora.
Estremeceu, consciente de como estava gelada.
 Estou telefonando para lhe informar que convidei mais duas pessoas para o jantar de sbado.
Alessandra franziu a testa.
 Mesmo? Quem, Christopher?
 Stephanie e Dave Perrin. Eu os encontrei perto do escritrio. Voc os conheceu durante o vero, lembra-se?
 Ah... sim.  A pulsao de Alessandra acelerou-se.  Como eles esto?
 Bem. Acho que seria melhor se simplificssemos tudo. Posso pegar salmo fresco na peixaria no sbado, e ento faremos um churrasco.
 Churrasco? No acha que a temperatura no  adequada para comermos ao ar livre?
 Quem disse em comer ao ar livre?  Christopher estava querendo provoc-la.  Se fizermos churrasco de salmo e colocarmos meia dzia de batatas para serem assadas, poderemos acrescentar salada e terminar com uma torta de queijo da padaria da cidade. O jantar ser simples.
Alessandra ficou em silncio por um momento. O cardpio de Christopher era delicioso, porm, pouco elegante.
 Parece timo.
 Ento est combinado.  Christopher no pde deixar de sorrir, e Alessandra percebeu.  Eu a verei mais tarde.
 Espere! So apenas trs horas. No vai telefonar para ver se estou aqui na prxima hora?  Sem saber por que ela desejou restabelecer a velha animosidade, e sentiu que em algum ponto da conversa um limite invisvel fora transposto.
 Eu no disse que no ligaria.  Ento, Christopher desligou, sem se despedir.
Alessandra recolocou o fone no gancho.
O telefonema foi uma delicadeza. Durante seu casamento com Glen, ele costumara levar diversos amigos para comer em casa sem avis-la, esperando que sua mulher, em um passe de mgica, tivesse o jantar pronto para todos e a mesa decorada, como para servir a um rei.
O que achou mais encantador, entretanto, foi Christopher planejar o cardpio, de forma a requerer o mnimo esforo da parte dela.
O gesto revelou ser ele um homem com considerao, ou algum desejando perdoar e esquecer erros passados.
Alessandra levou a mo ao peito. Paula tinha sorte em haver encontrado uma pessoa como Christopher, e mais uma vez Alessandra esperava que sua irm recobrasse o juzo.
Nada tinha contra mulheres dedicadas  carreira. Afinal de contas, tambm prosseguira com a sua no decorrer de seu casamento com Glen. Mas, caso Paula alcanasse sucesso no mundo dos espetculos, sua profisso exigiria muito, deixando-lhe pouco tempo para dedicar ao marido e filho.
Alessandra tinha de acreditar que Paula acabaria tomando a deciso correta. Ao menos para o bem de Nicholas.
Quando Christopher saiu da garagem, por volta das seis da tarde, foi saudado pelo aroma delicioso de frango.
Olhou para a embalagem de papel marrom em sua mo e a deixou na saleta, junto com o casaco.
Presumira que a irm gmea de Paula seria igual a ela. Por isso parara para comprar comida pronta a caminho de casa em um dos restaurantes da rua principal.
Passara horas tentando diminuir a pilha de papis sobre a escrivaninha, tarefa negligenciada no decorrer das ltimas duas semanas. Mas sua mente no estivera nos assuntos profissionais, teimando em dirigir-se a Alessandra Nelson, irm de Paula, a mulher que se importava com seu filho.
Culpou-se milhares de vezes por no ter percebido  primeira vista que ela no era Paula. E, ao pensar naquele primeiro encontro, percebia que Alessandra tentara lhe contar que ele cometera um erro.
O que o deixara atrapalhado fora ver o modo carinhoso, cheio de amor incondicional com que Alessandra cuidava de Nicholas. E o jeito como o repreendera por no ter um assento apropriado para transportar o beb. Agira como uma leoa protegendo o filhote.
Mais do que ofendido pelo protesto, Christopher vira-se admirando o modo como a suposta Paula o enfrentara, sobretudo por uma causa to importante quanto a segurana do pequenino.
Mas, enquanto uma parte de Christopher aplaudira as alteraes observadas naquela que pensara ser Paula, ele deliberadamente optara por ignor-las. Temera que seus planos traados com tanto mtodo pudessem estar em perigo.
O som de gua corrente e de algum armrio sendo fechado ps fim a suas divagaes. Foi para a cozinha, parando  soleira.
Alessandra estava em p,  pia, de costas para ele. Christopher deixou seu olhar passear pelo corpo sinuoso, fazendo comparaes.
Embora se parecesse muito com Paula, Alessandra no demonstrava o egosmo e a superficialidade to inerentes  irm gmea.
Em Alessandra havia apenas calor genuno, bem como sinceridade em tudo o que fazia. Christopher vira-se forado a confiar nela, e sua hspede passara no teste, deixando-o atnito por um dia t-la confundido com Paula.
Mas eram gmeas, lembrou-se logo, e gmeas eram conhecidas por partilharem de um lao prximo. Haviam se unido em um plano para engan-lo e, pelo bem de seu filho, Christopher sabia que no poderia baixar a guarda.
Alessandra virou-se, e Christopher percebeu que assustou-se ao v-lo ali.
 No o ouvi chegar.  Ela esboou um sorriso incerto.
 O que h para jantar? Algo est com o cheiro maravilhoso!  Christopher a viu enrubescer por sua observao.  Nicholas est no bero?
 Sim, mas deve acordar em breve. O jantar est quase pronto. Fiz frango.  Alessandra desejava muito saber se Christopher gostava de comer de imediato ao chegar ou preferia trocar de roupas antes.
 Posso ajud-la?
 Obrigada, mas tudo est sob controle.
"Meu Deus! Como ele  gentil!"
Glen jamais tomaria uma atitude to delicada.
 Tenho tempo de ir para o quarto, me lavar e me trocar?
 Claro. D uma olhada em Nicholas, por favor. Christopher sorriu.
 Ser minha primeira parada.
Christopher retornou  cozinha minutos mais tarde. Usava cala jeans desbotada e camiseta branca, parecendo muito acessvel e atraente.
 Nicholas ainda dorme como um anjo.  Aproximou-se da mesa e sentou-se.
  possvel que j tenhamos terminado de jantar quando ele acordar.  Alessandra comeou a servir a comida.
Christopher aceitou o prato que lhe era estendido e agradeceu.
Alessandra serviu uma poro a si mesma e acomodou-se diante dele.
 Voc... ns temos sorte por Nicholas ser um beb to sossegado.  Alessandra tentava travar uma conversa.  No  como...
Parou de falar de repente, lanando um olhar cheio de culpa para Christopher.
 Nicholas no  como quem?  Christopher franziu a testa.
 Quer um pouco de salada?  Alessandra perguntou, empurrando a travessa na direo dele.  Oh... S um minuto, eu me esqueci do molho.
Levantou-se e foi at a geladeira, esperando que, quando retornasse, Christopher no insistisse na questo.
Precipitara-se outra vez. Estivera prestes a dizer que Nicholas no era como rica.
 Obrigado.  Christopher temperou sua salada e voltou  carga:  Nicholas no  como quem?
Alessandra ficou vermelha de novo.
 Nicholas no  como alguns bebs que sofrem de clica e choram muito. Eu li sobre isso em algum lugar  acrescentou, com uma calma que estava longe de sentir.
Voltou a sentar-se, fingindo interesse pela comida, mas consciente do olhar de Christopher.
 Leu em um daqueles livros sobre crianas que eu trouxe para casa?
Alessandra no o encarou, e tornou a mentir:
 Sim.
"O que ser que deu em Christopher para ter tanto interesse nisso?"
 Tambm li alguns. Mas nenhum foi capaz de descrever o que sinto todas as vezes que olho para Nicholas  confessou, baixinho.  Ainda no acredito que eu tenha um filho, que ele seja meu...
Christopher no continha o orgulho que levou lgrimas aos olhos de Alessandra. Como havia sinceridade no que ele dizia!
Se um dia teve dvidas sobre os sentimentos de Christopher em relao a Nicholas, elas desapareceram naquele instante. Seu amor pelo filho era poderoso e intenso.
Alessandra, mais uma vez, invejou Paula, to afortunada por ter se casado com um homem comprometido de verdade com a famlia.
Durante o restante da semana, os dias caram em uma espcie de rotina, governada pelos horrios de alimentao e sono de Nicholas.
Christopher insistiu em responsabilizar-se por dar as mamadeiras noturnas ao beb. Nicholas j comeava a dormir quase a noite toda.
Christopher, sempre, ao chegar em casa do trabalho, banhava, alimentava o filho e o colocava no bero, zelando pela qualidade do tempo que passava com o pequeno.
Alessandra sentiu-se aliviada e satisfeita quando Christopher parou de telefonar de hora em hora para verificar se ela estava ali. Em vez disso, ligava apenas em determinadas ocasies, e ento perguntava se precisava de algo da rua.
Tanta solicitude em relao ao seu bem-estar e ao do beb s fazia aumentar mais e mais sua admirao pelo homem que era marido de sua irm.
Os ltimos quatro dias foram quase idlicos, e Alessandra percebeu que o tempo que dedicado a cuidar de Nicholas ajudava-a a superar o trauma deixado pela perda de rica.
Mas havia um perigo muito grande em tudo aquilo. Alessandra no continha o encantamento pela tarefa de ser me de Nicholas. E, embora procurasse lembrar-se de que a situao era apenas temporria, uma parte sua desejava que a vida de sonho que experimentava jamais chegasse ao fim.

CAPTULO VII

Na manh de sbado, Alessandra acordou com uma sensao de felicidade que um dia pensou que jamais voltaria a sentir. Encontrou Christopher na cozinha, preparando o desjejum.
O sorriso caloroso de cumprimento foi direto at seu corao. Alessandra se ps a observ-lo colocar panquecas em um prato, acompanhadas por caf.
Em seu quarto, o pequeno Nicholas comeou a chorar, mas, antes que ela pudesse se mexer, Christopher colocou a mo em seu ombro.
 Cuidarei dele. Fique  vontade e alimente-se bem.  E dirigiu-se s escadas.
Alessandra tomou um gole da bebida quente, maravilhada por estar convivendo com um homem to ansioso por partilhar suas responsabilidades paternas. E to determinado a ter um papel importante na vida do filho.
Christopher de tempos em tempos subia para verificar se tudo ia bem com Nicholas. Por fim, reapareceu na cozinha aps deixar o menino deitado para uma soneca.
 So quase duas horas.  melhor eu ir. Pegarei o salmo no mercado no caminho de volta.
 Nicholas dormiu?
 Sim, mas deu um pouco de trabalho. Estava mais interessado em observar o enfeite sobre o bero.
Alessandra achou graa.
 Ele est comeando a ver as formas e movimentos dos animais agora.
 E sorri com mais frequncia tambm  disse Christopher, com ternura.
 Sim.
Nicholas permanecia acordado por longos perodos, e iniciara o processo de responder a toda sorte de estmulos.
 Esquecemo-nos de algo, Alessandra?
 Ah... E preciso trazer alguns limes. Pretendia compr-los ontem, mas esqueci. Fora isso, creio que tudo est sob controle.
 timo. Sinto-me ansioso por nosso churrasco. Faz tempo desde que ns... tivemos companhia para o jantar.
 A bem da verdade, seria aquela a primeira vez que Christopher teria visitas desde que se mudara para aquela residncia, um ano atrs.
 Paula no fizera esforo para socializar-se com seus amigos, procurando lembr-lo o tempo todo de que no seria de muita valia, j que no ficaria por ali.
 Mas aquela mulher no era Paula. Se aprendeu algo no decorrer dos ltimos dias era o quanto gmeas idnticas podiam ser diferentes em personalidade.
Alessandra no era como a irm. De fato, pareciam opostas. Christopher via-se cada vez mais afeioado a Alessandra, ao seu calor humano, seu sorriso e a devoo para com Nicholas.
 Estou ansiosa por esta noite tambm  ouviu-a dizer, e, diante daquelas palavras, Christopher se animou.
Ele vinha se alegrando muito ultimamente devido ao fato de estar experimentando o que era ter uma famlia. E no queria que isso acabasse.
 Tenho de ir para o escritrio, Alessandra, mas devo estar de volta em torno das quatro. O pessoal vir s cinco, no  mesmo?
 Foi esse o combinado.  Alessandra procurava, em vo, ignorar as batidas cardacas aceleradas, causadas pelo jeito de Christopher.
Alessandra ocupou-se em limpar os utenslios e aprontar a sala de jantar para receber os convidados. Dava os ltimos toques na mesa quando o telefone tocou. Achando que poderia ser Christopher, apressou-se para a cozinha e pegou o fone.
 Al?
 Alessandra,  voc?
 Paula! Sim, sou eu!  Sentiu seu contentamento ir aos poucos desaparecendo.
 No vai acreditar no que aconteceu! Tenho novidades incrveis!  Paula quase gritava, tamanha sua empolgao.  Minha agente acabou de me ligar. Consegui um papel! Estarei trabalhando em um novo filme com dois dos principais atores de Hollywood!
Em seguida, soltou uma dzia de interjeies para poder extravasar seu estado de absoluto nimo.
 Estou encantada, eltrica, em xtase! Esta  a oportunidade pela qual tenho esperado e sonhado, Alessandra. Depois disso, sei que minha carreira ser um estrondo!
 Paula! Isso  maravilhoso! Parabns, querida!  Alessandra tentava parecer entusiasmada, mas no conseguia afastar do pensamento a fortssima ameaa de Christopher resolver tomar Nicholas dela.
 Sabia que isso aconteceria  prosseguiu Paula, fazendo crescer a preocupao de Alessandra.  Estou nas nuvens! Fico animada apenas em falar no assunto! Imagine s! Meu nome estar na tela, perto do nome deles!
 Parece excitante. Mas eu achei...
 As filmagens comearo em dezembro, o que  excelente, pois me dar bastante tempo para ficar em forma.
 Paula, espere. Voc no est se esquecendo de algo? No entrou em contato com o advogado?
 Por que preciso de um advogado? Tenho uma agente magnfica, e ela est negociando um acordo timo.
 Estou me referindo de Nicholas. Disse-me em San Francisco que Christopher ameaou tir-lo de voc caso voltasse a atuar como atriz. Contratou um advogado? Talvez se se sentasse com seu marido e lhe contasse a novidade, explicando a Christopher o quanto...
 Marido? Voc disse "marido"?!  Paula parecia divertidssima com tudo aquilo.
 Sim Alessandra respondeu, confusa com a indagao. Paula gargalhou.
 Christopher no  meu marido. No somos casados.
 Como no?!  Alessandra teve dificuldade em conseguir absorver o impacto da revelao surpreendente da irm. Mas Christopher usa aliana.
  apenas um anel clssico. Eu o provoquei dizendo-lhe que deveria coloc-lo na mo esquerda, e ento eu usaria um tambm. Assim, todos presumiriam que ns nos casamos em segredo. Foi apenas uma brincadeira.
Paula no parava de rir.
 Voc e Christopher no se casaram...
 No me leve a mal. Christopher  um bom homem, e passamos bons momentos juntos. Mas  daqueles com idias antiquadas sobre amor e matrimnio, e quando me fez uma proposta de casamento eu lhe disse que no estava pronta para tudo isso. Pelo que imagino, nunca estarei.
Alessandra respirou fundo, ainda no buscando aceitar a novidade.
 Alm do mais, eu sabia desse projeto de que lhe falei. J havia lido o enredo, e vi um papel perfeito para mim. No podia simplesmente dar as costas ao meu sonho, podia?
Alessandra no conseguiu pensar em nada para dizer. "Como Paula pde ter tanta sorte, tendo um rapaz como Christopher a propor-lhe que fosse sua mulher, oferecendo-se a fazer a coisa certa, com honradez, e sendo rejeitado?"
 E quanto s ameaas que voc me falou que Christopher fez?
 No  importante agora.
 No pode estar falando srio!  Alessandra protestou, atnita com a pouca importncia, para no dizer nenhuma, que a irm dava ao prprio beb.
No fazia sentido... Nada fazia sentido. A menos...
E ento Alessandra comeou a entender.
 Voc mentiu para mim sobre Christopher, no , Paula?
 No foi bem assim. Ele quer mesmo ter a custdia de Nicholas...
 Por que fez isso? Por que desejou que eu fingisse que era voc?  Alessandra a interrompeu, irada.  J que estamos neste assunto, talvez possa explicar o motivo de ter fugido daqui.  uma indagao que Christopher fez muitas vezes. Estou curiosa de saber qual a verdade. Paula nada disse. Vrios e tensos minutos se passaram, e Alessandra comeou a acreditar que a ligao tinha sido interrompida.
 Estou esperando, Paula.
 Veja bem, minha irm. Quando voc me disse que Christopher apareceu em sua casa, no vi nenhum mal em deix-lo pensar que havia me encontrado. E me senti melhor em saber que voc estaria cuidando de Nicholas. S isso.
Alessandra respirou fundo. No podia acreditar que aquela fosse sua gmea.
 E o motivo de eu ter partido antes do nascimento de Nicholas foi porque me sentia uma prisioneira. Christopher s sabia falar sem parar sobre a vinda do beb e... Ah, me cansei logo de tudo aquilo! Ele no se importava comigo, apenas com a criana.
"Minha irmzinha continua sendo a petulante de sempre."
 Ento voc decidiu que j bastava e que ia partir.  isso? Acertei de novo?
 Mais ou menos. Recebi uma ligao urgente de minha agente dizendo-me que o estdio j havia comeado a fazer os testes.  A entonao animada de Paula retornou.  At ento, achei que s comeariam no ms seguinte. Fiquei apavorada! Tinha de fazer algo! Imaginei que, se eu aparecesse no estdio, de alguma maneira poderia convencer o diretor de que eu era a melhor candidata. Alessandra passou a mo por entre os cabelos, impaciente.
 Eu sabia que se falasse com Christopher sobre meus planos, ele me impediria. Ento, depois que ele saiu para trabalhar na manh seguinte, parti. Foi tolice, tenho conscincia disso.
Paula fez uma pausa.
 Acho que eu poderia ter telefonado para Christopher assim que Nicholas nasceu. Mas tinha medo de que levasse nosso filho e nunca mais me deixasse v-lo. Alm de tudo isso, nem mesmo cheguei ao estdio. Entrei em trabalho de parto uma hora depois de chegar a Los Angeles. Mas imediatamente aps o nascimento de Nicholas, telefonei para minha empresria e lhe falei que estava pronta para fazer a entrevista final. Foi sorte minha ela j ter conseguido postergar minha apresentao por duas semanas.
Alessandra suspirou, tendo dificuldade em compreender o motivo de sua irm ter arriscado a segurana do filho no ventre apenas para participar de uma audio.
Pelo jeito, Paula mentira sobre Christopher ter feito uma ameaa, e ao fazer isso envolvera Alessandra em uma farsa desnecessria, um tipo de trapaa que em nada se relacionava a se incomodar com o bem de Nicholas, e sim  ambio de Paula em alcanar sucesso.
 Alessandra... escute. Nada disso importa agora, meu bem. Voc no pode apenas estar feliz por mim? No compreende o que esta incrvel chance significa para minha carreira?
 No, no compreendo.
"No  possvel que Paula no se incomode nem um pouco em deixar seu recm-nascido aos meus cuidados! E parece no dar a mnima tambm para a dor e angstia por que fez Christopher passar!"
 Voc nunca compreendeu.  Paula mostrou-se amargurada com Alessandra.  Eu mereo esta oportunidade. Trabalhei muito duro por isso, e nada vai me impedir.
Alessandra conteve um suspiro.
 Ainda no me disse o que far quanto a Nicholas. No acha que  hora de conversar com Christopher e discutir um acordo em relao ao beb?
 Est certo, est certo!  Enfim, Paula deixou seu aborrecimento evidente.
 Parece que se esqueceu de que tem um filho. Oh, a propsito: j contou a mame e papai sobre o novo neto?  Alessandra tentva mudar um pouco de assunto e suavizar a conversa.
 Ainda no. Eles esto a caminho da Nova Zelndia para ir ver tia Ruby, no se lembra? E disseram que parariam no Hava por uma semana antes da visita.
 Tem razo. Tinha me esquecido.
Seus pais planejaram passar meses com a irm de sua me, que estava se recuperando de uma recente operao cardaca.
 Olhe, preciso ir.  Paula interrompeu as conjecturas de Alessandra.  Eu me encontrarei com minha agente e algumas amigas esta noite para uns drinques. Pelo menos h algum por aqui desejando comemorar comigo.
 Paula, espere! Estou muito contente por voc, no tenha dvida, mas  hora de encarar suas responsabilidades. Christopher  um pai maravilhoso e ama muito Nicholas. Vocs deviam se encontrar para tomar uma deciso juntos.
 Acho que tem razo. Telefonarei para a companhia area e agendarei um vo para Seattle. Estarei a amanh  noite. Tudo bem assim para voc, irm querida? Ou preferiria que eu abandonasse minha comemorao para tomar um avio esta noite?
"E ainda por cima este sarcasmo!" Alessandra suprimiu outro suspiro.
 Amanh estar bem  falou, com calma.  E, Paula, parab...
Mas sua irm j havia desligado. Quando Alessandra recolocou o aparelho no gancho, ouviu o choro de Nicholas no quarto, e foi at ele.
Meia hora mais tarde, ainda estava cuidando do beb quando ouviu um barulho no andar de baixo, revelando-lhe que Christopher retornara.
Sentiu as batidas de seu corao se acelerarem. Pela primeira vez desde que ele entrou em sua vida, uma semana atrs, viu-se tmida e insegura com sua presena.
Fora bombstica a gargalhada de Paula anunciando que Christopher no era seu marido. Alessandra vinha tentando aceitar a novidade, dizendo a si mesma que aquilo nada mudava, embora soubesse, em um canto secreto de sua alma, que estava querendo se enganar.
Acionou o mbile com caixinha de msica suspenso sobre o bero de Nicholas antes de ir para o corredor e para sua sute. Tinha certeza de que Christopher daria uma espiada no filho, e no estava pronta para encar-lo.
Independente dos ltimos acontecimentos, o bem-estar de seu sobrinho ainda era a preocupao principal de Alessandra. Entristecia-a saber que o pequenino no era a prioridade de Paula.
Durante todo o telefonema, sua irm no perguntou uma vez sequer como o filho estava. Alessandra sentiu-se envergonhadssima e muito brava com Paula. Aquela cabea-dura no percebia como era abenoada?
Parecia irnico que Paula tivesse encontrado um homem fabuloso como Christopher. Algum desejoso em assumir seus atos at o fim, comprometido em criar o filho, dando-lhe amor e ateno.
Em vez de agarrar com unhas e dentes o milagre de que fora alvo, aceitando o fantstico presente, Paula abandonara sua famlia por uma chance de estrelato.
E, embora Alessandra soubesse que decerto j era tarde demais, jurou pelo bem de Nicholas tentar mais uma vez fazer sua irm enxergar o que estava jogando fora.
E quanto a Christopher? Durante os ltimos dias, sua raiva em relao a ela, ou a Paula, havia desaparecido. Estavam at vivendo em uma espcie de harmonia. Alessandra viu-se imaginando se Christopher comeava a achar que Paula mudara de idia e estava contente em seu papel de me.
De sbito, a perspectiva de prosseguir com a farsa por mais vinte e quatro horas pesou-lhe muito nos ombros. Seria justo manter Christopher s escuras se Paula estava a caminho de Grace Harbor?
At ento estivera ansiosa pela noite que teriam, mas, naquele momento, via-se preocupada com o dilema de contar ou no tudo a Christopher.
O que pensaria dela? Como reagiria ao descobrir que no era Paula? Teria todos os motivos do mundo para detest-la e mand-la embora.
Foi com imenso pesar que Alessandra saiu da relativa segurana de seu quarto. Como trouxera apenas cala jeans e alguns suteres, vira-se forada a escolher um dos vestidos de Paula.
Optou por um azul-marinho com mangas longas. A seda moldou-se com delicadeza a suas curvas, e a saia quase atingia os joelhos. Sentia-se bem vestida demais para a ocasio, mas no tinha opo.
Escovou os cabelos at que ficassem brilhantes, usou dois pentes entalhados para segur-los longe do rosto e, em uma tentativa de aumentar sua autoconfiana, aplicou um pouco de maquiagem para iluminar os lbios e as faces.
Christopher terminou de temperar o salmo usando uma mistura de ervas e especiarias, e j o embrulhava para que ficasse pronto para o churrasco, quando ouviu Alessandra descer as escadas.
No estivera com ela desde o retorno, e presumira que Alessandra estivesse na sute, aprontando-se para o jantar.
Alcanou a toalha prxima e secou as mos. Olhou para cima ao v-la entrar na cozinha. A imagem de Alessandra usando um dos vestidos de Paula, parecendo uma modelo de revista de moda, fez sua pulsao acelerar.
Estava lindssima. Mas com certeza, aquela era uma beleza muito diferente da superficial de Paula, pois Alessandra emanava calor, carinho e doura.
 Est fantstica.  Christopher sorriu quando um rubor tingiu-lhe o rosto.
Alessandra fitou as prprias mos, entrelaando os dedos em um gesto nervoso que tocou fundo Christopher.
 Obrigada...
Seu evidente embarao o fez querer tom-la nos braos e beijar seus lbios trmulos.
Uma coisa Christopher sabia: quem quer que tivesse sido o ex-marido de Alessandra, fora um completo idiota por deix-la escapar.
 Tudo j est pronto, Alessandra.  Christopher deu um passo na direo dela.  A mesa est esplendorosa, a propsito.
 Que bom que gostou!
Sem saber direito que atitude tomar, Alessandra foi para trs da mesa da cozinha.
Christopher no estava surpreso por ela se mostrar nervosa com as visitas que receberiam. Afinal de contas, Alessandra nunca tinha visto Stephanie, Dave ou Dylan antes. Mas, quando Alessandra continuou a evitar encar-lo, Christopher teve a forte impresso de que havia mais em sua reao do que simples nervosismo.
 Nicholas deve ser alimentado em breve? Alessandra consultou para o relgio de parede.
 Na certa acordar quando todos chegarem.
 Excelente! Adoro criana que tm bons horrios. Desse modo no terei de acord-lo para mostr-lo a todos.
Aquela foi uma tentativa de faz-la rir, mas no deu resultado. Confuso, Christopher colocou a toalha sobre o balco.
 Paula, est tudo bem?
 Sim! Claro!  respondeu de um jeito alegre demais. Christopher percebeu o tremor em sua voz e notou a pontada de culpa nos olhos verdes.
Algo estava errado, isso era bvio. Podia sentir. O que poderia ter acontecido para causar tal mudana nela?
Um pensamento lhe ocorreu: ser que Paula tinha telefonado em sua ausncia? Era uma explicao lgica para o comportamento inusitado de Alessandra, e isso o colocou em imediato estado de alerta.
 Estou apenas um pouco nervosa por causa do jantar desta noite.
 No fique, Alessandra.  Christopher tentou passar-lhe tranquilidade, mas seus pensamentos estavam longe.
Sentia-se tentado a indagar se Paula ligara, mas um breve olhar para as horas o fez ver que no havia tempo suficiente, no com os convidados a caminho, chegando em poucos instantes.
 E melhor eu tomar um banho. Estarei de volta em breve.
Christopher galgou a escadaria de dois em dois degraus.
Quando estivera no escritrio, ao acionar a secretria eletrnica, recebera o recado de Gregory Dunsford.
Gregory no tivera muito a revelar. Contara a Christopher sobre a audio a que Paula fora na vspera, mas a moa se mantivera prxima ao hotel quase sempre, dividindo-se entre seu quarto e a academia de ginstica.
Ser que Paula j havia decidido o prximo movimento?, Christopher gostaria de saber. Teria entrado em contato com Alessandra para lhe contar qual seria a nova fase de seu plano?
Christopher ficou debaixo do jato quente de gua tentando imaginar um modo de deter Paula. Alessandra era a chave. Teria de fazer com que ela lhe falasse o que tinham em mente. Mas como?
Desligou o chuveiro e pegou a toalha. Aps secar-se, limpou o espelho embaado.
Contemplou a barba por fazer e pegou a lmina de barbear. Deteve-se para contemplar seu reflexo. Com frequncia ouvira mulheres comentando sobre sua boa aparncia, mas no via nada de extraordinrio em si mesmo.
Uma antiga namorada uma vez o acusara de ser bem-apessoado demais e de ter muito charme. Teria o suficiente para fazer uma garota partilhar seus segredos mais bem guardados com ele?
Christopher sorriu. Talvez fosse hora de colocar seu to alegado apelo sexual em teste.
No instante em que a campainha tocou, anunciando a chegada de Maggie e Dylan, seguidos minutos depois por Stephanie e Dave, Alessandra soube que a noite seria um sucesso.
Conforme ela previra, Nicholas acordou logo depois de os amigos chegaram, e quando Christopher levou o filho para o andar de baixo, seu rosto resplandecia de orgulho ao aceitar as muitas congratulaes.
Maggie e Stephanie se alternaram para alimentar Nicholas. Alessandra levou os homens para o quintal, onde prepararam a refeio e discutiram sobre a perspectiva de Nicholas e Dylan Jnior se tornarem jogadores de basquete.
Alessandra colocou o sobrinho no bero por volta das sete, e pouco depois, todos estavam sentados  mesa da sala de jantar, apreciando o delicioso peixe assado.
A conversa fluiu com facilidade. Alessandra tomava o cuidado de manter sua contribuio mnima, mas em breve superou o nervosismo ao notar que os amigos de Christopher eram pessoas calorosas e agradveis.
Percebeu a qumica existente entre Maggie e seu marido, Dylan. O casal partilhava sorrisos e olhares secretos.
Enquanto as mulheres tiravam os pratos, os rapazes dirigiram-se  sala de estar. Foi ento que Alessandra perguntou a Maggie como Dylan e ela haviam se conhecido.
Maggie relatou uma histria extraordinria, confessando que se apaixonara por Dylan, um tenente comandante da Marinha norte-amricana e sobrinho favorito da nova mulher de seu pai, desde o momento em que pousou os olhos nele.
Quando o pai de Maggie e a tia de Dylan morreram em um acidente areo, Dylan fora para Grace Harbor para o funeral. Durante aquele final de semana triste ele e Maggie fizeram amor para se consolar da perda do entes queridos.
No dia seguinte, Dylan foi chamado de volta  base e, ao aproximar-se de San Diego, envolveu-se em um acidente de carro que o fez perder a memria.
Vira-se face a face com Maggie, grvida dele, mas no a reconhecera de imediato. A fora do amor de Maggie e o nascimento do filho fizeram Dylan, por fim, recuperar as lembranas, e os dois voltaram a se encontrar.
Aps ouvir a narrativa to romntica de Maggie, Alessandra comeou a fantasiar com Christopher. Durante toda a noite tivera a sensao de que ele buscava reconciliar-se com... Paula, colocar o relacionamento em um patamar mais ntimo.
Fora mais atencioso do que o normal, com mais considerao, inserindo-a nas conversas, com gentileza provocando-a e encontrando desculpas para toc-la. Alessandra tentou dizer a si mesma que tudo era por causa dos convidados.
Mas, quando se juntaram aos homens na sala de estar, Christopher se levantou de imediato para ficar a seu lado. Ao sentir o brao dele em sua cintura, suas pernas ameaaram bambear.
Durante muito tempo ficaram sentados conversando com os convidados, Alessandra tornando-se cada vez mais consciente da lenta mas deliberada seduo de Christopher.
Sentada junto dele na namoradeira, podia sentir a presso da coxa contra a sua, fazendo seu sangue se aquecer.
E ento os dedos de Christopher puseram-se a acariciar seu ombro, e a respirao bafejou em sua face quando ele se inclinou para fazer um comentrio.
Alessandra sentia o desejo pulsando nas prprias veias, tornando-a fraca e ansiosa.
O sorriso de Christopher, cheio de malcia, demonstrava que sabia muito bem o que fazia com ela e o efeito que lhe causava. E o fato daquela atitude deliberada estar ocorrendo diante de seus amigos tornava Alessandra indefesa.
 Foi uma noite adorvel  Maggie falou, dez minutos mais tarde , mas acho que  hora de eu levar meu marido para casa. No queremos abusar da bab. Caso contrrio, ela pode no aceitar nossa prxima solicitao.
  melhor irmos tambm.  Dave levantou-se.
 Obrigado por aquele salmo maravilhoso. A companhia tambm no foi ruim  brincou Dylan, apertando amigavelmente o brao de Christopher.
 A prxima vez ser sua.
 Combinado, Christopher.  Dylan virou-se para Alessandra.  Muito agradecido, Paula, por tudo. Pressinto que seu marido esteja ansioso por t-la s para ele.
Sua provocao a fez enrubescer.
 Tem toda razo  Christopher respondeu, com suavidade. Enlaou Alessandra e a puxou de encontro a si, beijando-a de leve nos lbios.
Zonza com as sensaes que a envolveram, Alessandra pareceu se desligar do que aconteceu depois. Tinha conscincia apenas do brao de Christopher em torno de si, de seu corpo pressionado de encontro ao dela e do calor que ainda estava em seus lbios.
O som de Christopher fechando a porta a trouxe de volta da hipnose. Seu primeiro instinto foi escapar, correr para sua sute e se trancar por dentro. Porque, embora a constatao dilacerasse seu corao, era Paula quem Christopher acreditava estar seduzindo. Era sua irm quem ele queria.
Mas, antes que pudesse dar um passo sequer, Christopher a fez virar-se para encar-lo.
 Acho que ambos precisamos disto, no acha?
Qualquer protesto que Alessandra pudesse ter feito foi impedido quando a boca to sensual clamou pela sua em um beijo que a fez perder o flego.
O mundo passou a girar fora de ritmo, e tudo o que Alessandra pde fazer foi agarrar-se aos msculos msculos para no cair.
Excitao! Eletricidade! Erotismo! Era o nico jeito de descrever o que acontecia. Nada em sua existncia a preparara para aquilo. No queria que a carcia terminasse nunca mais.
Parecia to impressionante, impossvel de fato, que um beijo pudesse domin-la e roubar-lhe a razo assim...
Queria Christopher. Desejava-o com uma intensidade que a chocava. E era bvio que ele tambm sentia o mesmo.
"No!" A negativa veio de algum lugar dentro de sua cabea ao recordar-se de que no era a mulher que Christopher queria... Pensava que ela era Paula!
A tristeza fez Alessandra encontrar foras para afastar-se.
 Christopher, por favor pare!
 Por qu?  A voz dele era um sussurro de volpia.
 Voc no compreende.  Alessandra lutava para livrar-se do abrao.  No sou Paula! Sou sua irm gmea, Alessandra.
Respirando com dificuldade, preparou-se para a ira de Christopher.
Porm, suas declarao foi recepcionada pelo silncio.
 Ouviu o que eu disse, Christopher?
Alessandra no entendia o motivo de ele ter se calado.
 Ouvi, sim.  Christopher suspirou ao solt-la.  Sei quem voc , e j faz algum tempo. Agora, diga-me algo que no fiquei sabendo. Teve notcias de Paula hoje, no  mesmo? O que ela est planejando? Quer tirar Nicholas de mim?

CAPTULO VIII

Alessandra deu um passo para trs, atnita com a revelao de Christopher.
 Voc sabe que eu no sou Paula?!
 Sim, estou a par desse "pormenor".  Alessandra Nelson, irm gmea dela.
Alessandra arregalou os olhos.
 Mas... como?
Christopher, em poucas palavras, lhe explicou como soube da verdade.
Ao ouvi-lo, Alessandra no tinha certeza de que estava aliviada ou furiosa por Christopher ter descoberto sobre sua identidade fazia algum tempo.
 Vamos continuar esta conversa na sala de estar, Alessandra? No sei sobre voc, mas eu gostaria de um drinque.
Conforme andava, Alessandra tentava ordenar as idias. Em questo de horas, fora beijada por um homem que passara a admirar nos ltimos dias, algum que acreditara ser casado com sua irm. Soube, entretanto, que no era marido de Paula, afinal, e Christopher ficara sabendo que Alessandra estava se fazendo passar pela gmea.
 Conhaque?  Christopher ofereceu.
 No, obrigada.
Christopher serviu-se de uma dose de conhaque e, depois de tomar um gole generoso, ficou em p diante da lareira.
 Paula telefonou esta tarde enquanto eu estava ausente, no  mesmo?
Confusa, Alessandra ergueu a cabea e encontrou seu olhar perscrutador.
 Sim.  No havia motivos para mentir.
 O que sua irm tem em mente? Que passo planeja dar em seguida?
Havia frustrao e muita zanga na entonao de Christopher.
 Se Paula pensa que a deixarei levar meu filho sem lutar,  porque ficou louca.
 Paula  me de Nicholas, e ama o beb.
Mas faltava convico a Alessandra, e at mesmo enquanto falava no estava certa de acreditava no que afirmava.
 Voc no cr nisso mais do que eu, Alessandra. Paula ama Paula, e no est mais interessada em criar o filho do que em tomar lies de natao. Interessa-se apenas em us-lo ou a voc, ou a qualquer outra pessoa, contanto que consiga o que quer.
Alessandra sentiu um n na garganta. A anlise de Christopher a respeito de Paula era decididamente perfeita.
 Estou certo, no estou?
 Voc no acha que est pintando uma imagem muito dura dela? Paula  ambiciosa e, sim,  egosta s vezes, mas faz parte da natureza humana. Todos agimos com egosmo de vez em quando. Alm do mais, voc deve ter visto algo de atraente nela.
Observou que Christopher ficou sem graa.
 Marcou um ponto, Alessandra. Mas desde o instante em que ela disse que estava grvida, eu soube que Paula tinha seu prprio jogo. E estava certo.  Tomou o restante da bebida.
 Christopher...
 Paula no queria Nicholas  interrompeu-a, zangado.  Assinou um papel garantindo-me plena custdia do beb. Tudo corria de acordo com o combinado at que resolveu fugir.
Passou a mo nos cabelos, exaltado.
 Pensei que Paula tivesse mudado de idia e ouvido a voz de seu prprio corao. Mas comeo a duvidar que ela tenha sentimentos dentro daquele peito. Mesmo que eu precise gastar tudo o que possuo, estou preparado para lutar para manter meu filho aqui comigo.
Alessandra deparou com a frrea determinao de Christopher, mas tambm observou o medo. No havia at aquele momento percebido o quanto ele amava Nicholas.
 Sei apenas que Paula falou que estaria aqui amanh, Christopher. Minha irm quer conversar com voc e esclarecer tudo.  A inteno de Alessandra foi de oferecer ao pai de seu sobrinho algum conforto.
 E acreditou em Paula?
Alessandra estremeceu. Continuava dizendo a si mesma que Christopher tinha motivos para estar furioso com ela e direito de achar que no dizia a verdade.
 Se quiser que eu v embora, compreenderei.  Alessandra levantou-se.
Christopher a encarou e, por um momento Alessandra viu uma emoo estranha na profundidade daqueles olhos azuis, algo que ele logo disfarou.
 E por que iria querer isso?
 Devia ter lhe contado quem eu era desde o princpio, Christopher. Desculpe-me.
 Voc pode estar vivendo uma mentira, Alessandra, mas acredito que fez isso apenas pelo bem de Nicholas. Duvido que meu menino estivesse to feliz e sossegado sem sua presena aqui para cuidar dele. E por isso lhe agradeo muito.
Alessandra sentiu um calor agradvel espalhar-se por seu corpo diante do que ouviu. Cuidar de Nicholas fora uma alegria e um conforto. A chegada de Paula, no dia seguinte, entretanto, mudaria tudo.
 J  tarde, e estou cansada.
Christopher no fez nenhum movimento para det-la.
Ao chegar ao quarto, deu uma olhada no beb, que dormia como um anjinho. Ficou em p, vendo a criana, que passara a significar tudo para ela, e seus olhos ficaram rasos d'gua.
Sabia que seu corao se partiria ao deixar Nicholas. O fato de ter cuidado de um beb saudvel e feliz fora uma experincia importante, permitindo-lhe, de uma vez por todas, superar a perda da filha.
Mas no era apenas o pensamento de deixar Nicholas que lhe causava uma tristeza imensa. Naquela curta semana, passara a importar-se tambm com o homem que era o pai do beb.
Christopher lhe mostrara que ainda havia pessoas honradas, sensveis e amorosas sobre a face da terra. Homens que queriam aceitar suas responsabilidades e eram capazes de amar uma criana, de forma completa e incondicional.
Alessandra sentou-se na cama em um sobressalto, imaginando o que a teria acordado. Virou-se para o relgio de cabeceira e viu que passava das seis horas. Batidas  porta ecoavam pela casa.
Empurrando as cobertas para o lado, pegou o suter aos ps do leito e a cala comprida. Abriu a porta do quarto a tempo de ver Christopher, vestindo apenas cala jeans, apressando-se pelo corredor.
 Quem pode ser, meu Deus?  murmurou descendo os degraus.
Alessandra parou no topo da escada, imaginando se Paula decidira fazer a visita no incio da manh.
 Xerife Yates! Bom dia! Algum problema?
 Lamento perturb-lo, sr. McAndrew, mas  muito importante o que tenho a dizer. Conhece a srta. Paula Preston?
 Sim, xerife. O que foi que houve.
 Seu nome e endereo foram encontrados entre os pertences da srta. Preston. Voc , por acaso, um parente?
 De certa maneira. Por qu?  Christopher deu uma olhada na direo da escadaria.
 Saberia como ns poderamos entrar em contato com a famlia da srta. Preston?
 E melhor voc entrar, xerife Yates.
Christopher deu um passo para trs. Fechou a porta e virou-se para ver Alessandra descendo a escadaria, com uma expresso de ansiedade no belo rosto.
 Xerife Yates, esta  Alessandra Nelson, irm gmea de Paula  Christopher explicou.
O xerife tirou o chapu. Apertou-o de encontro ao peito e cumprimentou-a, solene:
 Srta. Nelson...
 Xerife, o que foi? O que aconteceu?  Alessandra sentiu, pelo olhar sombrio do homem, que algo terrvel tinha acontecido.
 Houve um acidente.
 O qu? Minha irm? Paula est bem?  Alessandra deu um passo na direo do policial.
O xerife Yates encontrou o olhar de Alessandra e, com vagar, balanou a cabea.
 Lamento ter de lhe informar, senhorita, mas sua irm est morta.
Alessandra deixou escapar um grito e deu um passo para trs.
 No! S pode ser um engano!
Lanou um olhar amedrontado para Christopher.
 Eu falei com Paula ontem, e ela estava bem. Vir aqui hoje. Por favor, xerife, diga-me que no tem certeza!  Alessandra sentia a cabea ferver, e tudo escureceu diante dela.
Christopher aproximou-se do local onde Alessandra estava, em p, tremendo, numa palidez mortal, a expresso de espanto e descrena. Ps o brao sobre seus ombros e a fez apoiar-se nele. Voltou-se, ento, para o oficial:
 Xerife Yates, poderia nos contar o que aconteceu? Paula bateu o carro?
 No, sr. McAndrew. A ligao foi feita para meu escritrio algum tempo atrs, de uma rdio patrulha de Los Angeles. Pelo que entendi, a srta. Preston esteve com algumas amigas na noite passada. Beberam no bar do hotel e foram para os jardins, onde comearam a criar alguma confuso.
Yates respirou fundo.
 Diversos hspedes telefonaram para a recepo queixando-se, e a polcia foi chamada. Quando dois policiais da patrulha chegaram, a srta. Preston, a quem descreveram como estando altamente embriagada, havia subido em uma das imensas fontes de concreto do jardim.
 O que aconteceu, afinal?
 De acordo com testemunhas, sr. McAndrew, ela se virou para acenar para as amigas e perdeu o equilbrio. Caiu, batendo a cabea no concreto. Morreu na hora.
 No! No! Alessandra gemeu de encontro ao peito de Christopher.
Podia imaginar Paula comportando-se de maneira tola, mas no arriscando a prpria vida.
 Sinto muito por sua perda, senhorita.
Mas Alessandra estava chocada demais para responder ao xerife.
 Obrigado por nos avisar, Yates.  Christopher segurou Alessandra com mais fora.
Naquele momento, Nicholas comeou a chorar. Alessandra, num sobressalto, virou-se na direo do som.
 O que acha de ir para cima tomar conta de Nicholas, Alessandra? Estarei l em um minuto, assim que me despedir do xerife.
Alessandra tentou se controlar, piscando vrias vezes para afugentar as lgrimas.
 Est bem.
Soltando-se de Christopher, comeou a subir os degraus.
Uma vez na sute do beb, Alessandra tentou afastar todos os pensamentos a respeito de Paula.
Ergueu a criana do bero e a abraou de encontro ao seio, murmurando suaves palavras de conforto. Foi para a cadeira de balano e sentou-se, imaginando por um momento se Nicholas teria acordado em razo da horrvel tragdia que cara sobre sua me.
No podia ser verdade. Paula no estava morta. Tinha de ser um erro!
Porm, enquanto seu crebro tentava em desespero negar a realidade, sabia em seu corao que era pura perda de tempo.
Resolveu lutar a qualquer custo contra a dor e o pesar que ameaavam engoli-la.
Embora seu relacionamento no tivesse sido to prximo como algumas gmeas costumavam ter, a constatao de que nunca mais veria sua irm, to linda e talentosa, de que os sonhos de estrelato de Paula estavam perdidos para sempre, evocava uma profunda melancolia.
 Nicholas est bem?  a pergunta suave de Christopher interrompeu seus devaneios.
Incapaz de falar, Alessandra apenas fez um gesto afirmativo com a cabea.
 Devo aquecer uma mamadeira para ele?
Dessa vez Alessandra fez sinal negativo. Havia lgrimas em seus olhos, mas ela procurou se conter. Temia que, se comeasse a chorar, nunca mais conseguisse parar.
Nicholas dormira, mas Alessandra parecia relutante em deix-lo no bero. Manteve-o consigo alguns momentos mais, e ento levantou-se, ajeitando o menino na pequena cama.
Cobriu-o com o cobertor e ficou contemplando o filho de sua irm, agora falecida. Havia uma espcie de conforto em saber que uma parte de Paula viveria em Nicholas, e que ela deixara para trs um legado maravilhoso.
Quando se virou para sair, surpreendeu-se em ver Christopher em p ao batente. Ele deu um passo em sua direo.
Alessandra, lamento tanto... Sei que Paula e eu estvamos em conflito a respeito de nosso filho, mas ela no merecia um destino to terrvel. Alm do mais, era me de meu menino.
Alessandra percebeu que Christopher estava sendo sincero. Ento, de repente j no pde mais conter a emoo, e soluou.
Christopher reagiu no mesmo instante, apoiando-a contra sua slida figura e abraando-a.
Um pranto muito amargo comeou a descer aos borbotes pelas faces de Alessandra.
Christopher segurou-a enquanto as lgrimas de raiva e arrependimento faziam sua passagem pelo rosto delicado. At que, exausta, Alessandra no teve mais foras para continuar extravasando seus sentimentos.
Quando Christopher a tomou nos braos e a carregou para seu quarto, Alessandra nem teve energia para protestar ou resistir. E, quando caiu no sono, imaginou ter os lbios de Christopher, to suaves quanto os de um anjo, roando de leve nos seus.

Haviam se passado duas semanas desde a morte de Paula. Alessandra estava sentada no quarto do beb, tentando fazer o sobrinho inquieto dormir.
  meu filho que eu ouo gemendo e chorando?  Christopher entrou no aposento.  O que acha de deixar-me tranquiliz-lo?
 Nicholas  todo seu.  Alessandra sentiu certo alvio ao erguer-se da cadeira de balano.  Esse danadinho est inquieto o dia todo. No tem febre, mas acho que talvez pegue um resfriado ou algo assim.
 Espero que no.  Christopher apanhou o menino. Comeou a fazer movimentos circulares nas costas de Nicholas e foi logo recompensado por um arroto barulhento.
 Muito bem, garoto! Aposto que voc est se sentindo melhor.  Christopher riu.
Alessandra achou graa.
 Voc tem uma afinidade to especial com ele!
 Obrigado. Alessandra?
Ela se virou para encontrar seu doce olhar.  Precisamos conversar. 
Alessandra assentiu.
 Estarei na cozinha, Christopher.  E saiu.
Uma vez l, ocupou-se em preparar um ch. Enquanto aguardava que a gua fervesse, pensava nas duas ltimas semanas.
Christopher fora uma fortaleza, insistindo em voar para Los Angeles. Alessandra oferecera pouca oposio, concordando com o argumento de que seria mais simples se ela ficasse tomando conta de Nicholas.
Por mais que fosse difcil, tinham discutido arranjos para o funeral. Concordara com a sugesto de Christopher pela cremao.
Enquanto Christopher permaneceu em Los Angeles, Alessandra conseguiu localizar seus pais na casa de sua tia, em Auckland. Quando lhes contou sobre Paula, eles quiseram voar de volta no mesmo instante, mas ela conseguiu dissuadi-los.
Receberam a novidade sobre Nicholas com surpresa e alegria, e quiseram saber de Christopher. Alessandra lhes disse que era um pai maravilhoso. Tambm lhes passou o convite de Christopher para que viessem visit-lo assim que voltassem da Nova Zelndia.
Mas foram os comentrios de sua me sobre Paula que mais permaneceram na lembrana de Alessandra.
Sempre pensou que os pais preferissem Paula, at sua me expressar a tristeza com o fato de ela sempre ter sido insegura. Revelou a Alessandra que com frequncia os dois se desesperavam, achando que a necessidade de Paula de obter ateno um dia a levaria a fazer alguma bobagem.
Ento, Alessandra despertou dos devaneios ao escutar o som da gua fervente. Abriu um armrio e percebeu o quo confortvel e feliz ficava na residncia de Christopher.
Sua me, Mary, lhe perguntara quando ela voltaria a San Francisco, e Alessandra no soubera o que responder.
Por mais que detestasse a idia de deixar Nicholas, sabia que no poderia ficar ali para sempre.
 Est fazendo ch? Eu gostaria de uma xcara  Christopher falou quando se juntou a ela na cozinha.
 Conseguiu acalmar Nicholas?  Alessandra ajeitou uma bandeja com chaleira, duas xcaras, pires, creme e acar na mesa.
 Sim, afinal. Mas o beb est acordado, olhando para o mbile. Parece fascinado com o objeto. No posso acreditar no quanto cresceu desde que o trouxemos para c.
Alessandra sentiu o peito se apertar. Christopher falava como se fossem os pais de Nicholas.
 Em seguida, ele comear a rolar. Em seguida, a sentar-se e a engatinhar.  Alessandra sorriu ao servir a bebida fumegante.
 E antes que possamos nos dar conta, estar pedindo as chaves do automvel e dizendo que tem um encontro com a mais linda menina da cidade.
Christopher gargalhou. O som profundo a deixou arrepiada. No era a primeira vez que desejava ficar por perto para observar Nicholas crescer e tornar-se um homem.
Estava se afeioando aos momentos preciosos em que falavam sobre seu sobrinho, partilhavam observaes a respeito da frequncia com que o menino sorria ou seu interesse por um novo brinquedo.
 Oua, Alessandra, sei que faz apenas duas semanas desde o acidente, mas no tivemos oportunidade para sentar e conversar. Eu gostaria de lhe dizer o quanto aprecio tudo o que tem feito por meu filho e por mim.
 Christopher, por favor... O fato de eu poder cuidar de Nicholas tem me ajudado muito, mais do que voc possa imaginar.
Christopher sustentou seu olhar por um longo momento.
 Fico feliz. A perda de sua irm tem sido muito difcil. E nem posso imaginar o que sofreu ao perder seu beb.
A simpatia e preocupao dele levaram lgrimas aos olhos de Alessandra.
 Oh, me desculpe, por favor! Sou todo desajeitado. No quis entristec-la.  Christopher estendeu a mo, pousando-a sobre a de Alessandra em um gesto que a enterneceu.
 Estou bem  disse com voz rouca, imaginando como Christopher soube da histria de rica.  Perder algum que amamos  de partir o corao, mas quando se trata de uma criana  como se uma parte de ns mesmos fosse arrancada. Mas eu no teria mudado um momento sequer dos cinco breves, porm, maravilhosos, dias em que estive com minha filha.
 Ela viveu por apenas cinco dias?!  Christopher desejou ter prestado mais ateno ao que seu amigo De-Marco lhe revelou sobre a irm gmea de Paula.
 Sim.  Num gesto gentil, Alessandra soltou-se dele.
 Pelo menos voc teve seu marido...
As pupilas de Alessandra brilharam, com raiva.
 Glen partiu quando eu estava grvida de quatro meses. Assim que os mdicos disseram que nossa criana teria pouca chance de sobrevivncia. Acho que meu ex-marido no pde encarar a realidade.  Ela lutava por controlar-se.
 Mas voc encarou tudo. Estava ali quando sua menina precisou de seu apoio. Foi muito corajosa.
Alessandra recomeou a chorar diante daquelas palavras de apoio. Christopher no era como Glen. Estivera ali, ao lado de Paula. Christopher era um homem raro, de carter acima de qualquer suspeita.
No era a primeira vez, desde que Christopher entrou em seu caminho, que Alessandra desejava que tudo fosse diferente e que Nicholas fosse seu filho. Queria muita coisa, mas seus desejos quase nunca se realizavam.
 Voc amava muito seu marido?
Um sorriso tnue curvou os lbios de Alessandra.
 Eu tinha vinte e trs anos quando o conheci. O que eu sabia do amor? Tudo faz parte do passado. O que importa  Nicholas e o que  melhor para meu sobrinho.
 Tem feito um trabalho esplndido, Alessandra. Entretanto, ambos sabemos que a situao no pode prosseguir assim. Voc tem uma casa e uma carreira a sua espera em San Francisco. E eu no posso, em s conscincia, permitir que adie ainda mais sua vida. Alessandra,  hora de tomarmos uma deciso.

CAPTULO IX

Alessandra no conseguia respirar direito. Parecia que algum espremia com mo de ferro seu corao.
Embora soubesse que aquele dia chegaria e tivesse tentado preparar-se para o inevitvel, o pensamento de deixar Nicholas, quase um filho seu, era mais do que podia suportar. Lutou para encontrar foras para falar.
 Acho que tem razo  conseguiu dizer, mantendo o olhar fixo no ch.
 A soluo mais prtica seria contratar uma bab para Nicholas.
 Uma bab... Alessandra repetiu, levando a xcara aos lbios.  Quanto tempo acha que demorar at encontrar uma moa adequada?
 No sei. Talvez seja boa idia colocar anncio em alguns jornais e partir da. Claro, se voc estiver ansiosa por retornar a San Francisco poderei pedir a Maggie que cuide de Nicholas para mim durante o dia.
 No!  A palavra veio com mais rispidez do que ela pretendera.  Quero dizer, no estou com pressa para retornar. Telefonei para meu editor ontem, e ele me disse que no h nada para mim, no momento.
 No se importa em ficar um pouco mais?
 No, no me importo.
"N verdade, Christopher, por mim eu ficaria para sempre. Com Nicholas e com voc..."
Christopher sorriu.
 Obrigado. Tem sido mais do que generosa, permanecendo conosco por tanto tempo, Alessandra. E, presumindo que eu encontre algumas babs, voc gostaria de analis-las? Eu apreciaria sua ajuda.
 Claro.  Ficou satisfeita por Christopher ter solicitado seu auxlio, embora infeliz por ter de escolher algum que iria substitu-la.
 Ento, diga-me, quantos livros ilustrou?
 Uma dzia.
 Nossa, Alessandra! Estou impressionado! E que espcie de livros so?
 Infantis.
 No sou muito familiarizado com esses. Mas ter Nicholas por perto mudar meus hbitos de leitura, creio. Adoraria ver seu trabalho. Voc sempre gostou de desenhar e pintar?
Um tanto desconcertada por seu interesse, Alessandra brincou com o dedo no pires antes de responder:
 Nem me lembro quando passei a me sentir feliz quando tinha lpis ou giz de cera e papel a minha frente.
 E eu, por meu lado, no tenho nenhum talento artstico. Nem mesmo consigo desenhar uma palmeira. Pode crer que era um daqueles garotos que se divertia mais mastigando lpis de cor do que desenhando com eles.
Christopher comeou a rir.
 Espero que sua me os tenha tirado de perto de voc antes que tivesse ficado doente.  Alessandra se divertia.
O som alegre melhorou um pouco seu estado de esprito.
 Esse era o trabalho da bab.
 Diga-me, Christopher, seus pais o deixavam com babs com frequncia?
Christopher encarou-a, e Alessandra percebeu que ele j no sorria.
 Falando com franqueza, mame me deixou aos cuidados de profissionais a maior parte de minha infncia.
 E quanto a seu pai? Ele nunca tomava conta de voc?
 Papai no se importou em ficar por perto tempo suficiente para ns nos conhecermos.
 Ento  por isso que... Alessandra parou de falar, encabulada.
 Desculpe-me. No  de minha conta.
 Voc ia dizer que  por isso que eu estava to determinado a ficar com Nicholas?
Alessandra assentiu.
 A resposta  "sim". Eu queria encontrar meu filho e traz-lo para casa. Era a nica maneira de ter certeza absoluta de que Nicholas teria o amor e a ateno que merece, e que eu no tive.
A intensidade com que Christopher se expressou assustou Alessandra, mas, antes que pudesse fazer algum comentrio, ele prosseguiu:
 No queria que um filho meu passasse pelo que passei. Minha me era uma atriz com a carreira em ascenso. No se importava em levar-me de uma audio para outra ou deixar-me com estranhos em horrios esquisitos do dia ou da noite. Ou deixar-me no quarto de hotel de um amigo, onde s vezes eu era ignorado, ou pior, negligenciado.
Christopher afastou a cadeira e levantou-se.
 Mas que terrvel!  Alessandra ergueu as sobrancelhas, mal sendo capaz de acreditar no que ouvia.
Mas no havia engano algum nas lembranas dolorosas e iradas.
Alessandra podia ver que Christopher estava tenso. Sentiu-se tentada a aproximar-se e oferecer conforto. No ao homem, mas ao garotinho magoado que residia em algum lugar profundo de seu peito.
 Jurei que meu menino jamais teria de suportar destino similar.
 Mas Paula no teria levado Nicholas de audio em audio, teria?
Christopher virou-se.
 No se eu pudesse fazer algo para impedi-la.
Ento a raiva de Christopher evaporou. Passou a mo pelos cabelos.
 Perdoe-me, Alessandra. Sei que vocs duas deviam ser muito prximas, mas precisa concordar que, quando falava da profisso, Paula mostrava-se obcecada. Houve uma vez em que esperei mesmo que... Ora, isso no nos levar a lugar algum. E melhor eu rascunhar o anncio para uma baby-sitter e fazer o telefonema.
Alessandra caiu em silncio ao observar Christopher deixar a cozinha. Percebera o pesar e o arrependimento dele. O que Christopher estivera desejando?
Ser que sua zanga e frustrao eram uma simples camuflagem para esconder o amor que sentia por Paula? Teria ansiado pelo retorno dela a Grace Harbor como um sinal de uma possvel reconciliao?
Sally Cooper entrou na sala de Christopher, com um papel na mo.
 Com licena, sr. McAndrew. Chegou outro fax em resposta a seu anncio.
Christopher franziu a testa e ergueu o olhar do documento que estivera analisando.
 O qu? Desculpe-me, Sally, eu no estava ouvindo.
 Acabamos de receber outra resposta a seu anncio.
 Oh... Obrigado, junte aos demais.
Christopher, mais uma vez, voltou a ateno para o relatrio.
 O senhor no deveria l-lo?
Ele a encarou.
 Estou lendo... Ah, voc se refere  resposta... Verei isso mais tarde.
 Disse-me isso ontem e no dia anterior, sr. McAndrew.
  mesmo?  Christopher recostou-se no encosto de couro da cadeira.  Passe-me as respostas, ento.
Sally pegou os envelopes lacrados, bem como os faxes, e os deu ao chefe.
 Quantas ofertas recebemos, Sally?
 Cinco cartas comuns e trs por fax. Christopher mirou a escrivaninha, buscando o abridor de envelope.
Sorriu quando Sally lhe estendeu o objeto.
 Obrigado.
 Sr. McAndrew?
 Sim?
 Preciso ir embora agora. Tenho hora marcada no dentista.
 Ah, ?
Sally suspirou.
 Eu lhe disse na segunda-feira que tinha um horrio com o dr. West na tarde de quarta. E hoje  falou, com alguma exasperao.
 Est bem. Eu me lembro. E melhor que v logo.
 Vejo-o amanh.  E deu-lhe as costas.
Christopher abriu os envelopes e ajeitou as folhas de papel sobre os faxes. Estudou a pilha, imaginando o motivo de estar relutando em analisar as candidatas.
Mantivera-se ocupado durante as duas ltimas semanas, lidando com o trabalho postergado. A cada noite que trancava o escritrio e ia para o lar, ansiava por passar bastante tempo com o filho e com Alessandra.
Sorriu ao pensar em Nicholas. Era um beb muito alegre, que crescia a olhos vistos, mostrando as mudanas a cada dia.
Precisava agradecer a Alessandra pela felicidade de Nicholas. Confiante e relaxada com o beb, ela era uma me perfeita, e sua presena criava uma atmosfera de amor e calor humano.
"Alessandra..."
Desde seu retomo de Los Angeles, Christopher mantivera-se distante, emocional e fisicamente, dando a ela tempo para recuperar-se do pesar. Sabia que Alessandra obtinha grande consolo nos cuidados cotidianos com o beb.
s vezes via-se invejando-a pela facilidade com que lidava com Nicholas quando o menino estava inquieto. Nada parecia assust-la e, embora procurasse manter um horrio para tudo, no era rgida ou controladora.
Ento, Christopher soube a resposta. No estava ansioso por contratar uma bab porque no queria que Alessandra partisse!
Quase desde o instante em que a trouxe e a Nicholas para Grace Harbor, os trs formaram uma unidade, uma famlia, e a possibilidade de v-la retornando a San Francisco lhe causava uma dor infinita.
A generosidade de Alessandra em concordar em ficar cuidando do sobrinho era mais do que Christopher tivera direito de esperar. Sabia que ela era a razo da harmonia reinante.
Mesmo diante da perda pessoal, Alessandra conseguira mant-los unidos. Era uma mulher incrvel. Mais uma vez, Christopher impressionou-se com o contraste entre Alessandra e Paula.
Mesmo assim, no havia como fugir ao fato de que devia agradecer a Paula por seu filho. E, embora a morte dela o tivesse chocado e entristecido, Alessandra sofrera muito mais, sem sombra de dvida.
Por isso ele insistira em voar para Los Angeles e cuidar de tudo. Achou que devia isso a Alessandra e a Paula.
Pagou a extravagante conta de hotel da me de seu filho. Dinheiro ou talvez a falta dele, fora a razo principal de Paula ter entrado em contato com Christopher quando descobriu que estava grvida.
Disse-lhe que assinara um contrato com sua agente concordando em no engravidar, e que temia que a empresria descobrisse. O rompimento no acordo destruiria suas esperanas de carreira em Hollywood.
Christopher no tinha certeza se Paula dissera a verdade, mas parecera desesperada por manter a gravidez em segredo, desejosa por deix-lo tomar conta dela.
Durante seus dois dias e noites em Los Angeles, Christopher passara bastante tempo relembrando seu relacionamento com Paula. No sentia-se orgulhoso de seu comportamento irresponsvel nem muito arrependido do que acontecera entre os dois. E como poderia? O resultado fora Nicholas.
E sentira falta do beb, mais do que julgou ser possvel. Sentira saudade do ritual noturno de banh-lo, aliment-lo e nin-lo at dormir.
Mas Nicholas no fora o nico a gerar esse sentimento em Christopher, em Los Angeles. Sofrera com a ausncia de Alessandra, de sua silenciosa reserva, seu carinho e sorriso.
Rememorou a noite do churrasco. Lembrou-se de como estivera linda. Alessandra provara-se uma estupenda anfitri. Sua personalidade amigvel e doura genuna conquistaram com facilidade seus amigos.
A inteno de Christopher naquela ocasio, quando comeara a flertar com ela, fora fazer baixar suas defesas na esperana de que Alessandra revelasse a verdadeira identidade e talvez lhe contasse o que Paula planejava.
Quando os convidados partiram, convencera-se de que bastaria um beijo para for-la a fazer as revelaes.
Sua armadilha, entretanto, perdera o efeito no exato instante em que seus lbios tocaram os dela, porque esquecera-se de tudo, a no ser da mulher em seus braos.
Alessandra tinha o gosto do paraso. Era pura e doce. Sua sensualidade natural envolveu Christopher de maneira irremedivel. A sensao daquele corpo pressionado contra o seu gerou um desejo mais poderoso do que qualquer coisa que ele j sentira antes.
Quando Alessandra rompera o beijo, levara consigo toda a fora de Christopher. Quisera enla-la de novo, mas a expresso perturbada nos olhos verdes o mantivera esttico.
Retornou ao momento presente quando o telefone na escrivaninha comeou a tocar. Atendeu-o.
 Sim!
 Christopher? Sou eu. Algo errado?
O tom ansioso de Alessandra o pegou desprevenido.
 Ol, Alessandra. No quis ser mal-educado com voc.
 Perdoe-me por perturb-lo, Christopher, mas estava comeando a me preocupar.
Ele ouviu Nicholas resmungando.
 Que horas so?
 Quase seis e meia, mas...
 Seis e meia?! Acho que perdi a noo do tempo. Foi Nicholas quem eu ouvi? Voc ainda no o banhou, no ?
 E uma tarefa sua. As nadadeiras e o snorkel no me servem, lembra-se?  provocou-o.
Christopher riu.
 Do modo como Nicholas chuta e espirra gua em mim, estou ponderando sobre me vestir em um traje de borracha.
Alessandra adorou a brincadeira.
 Obrigado por ter telefonado. Estarei logo a com vocs. At mais.
Alessandra, com vagar, recolocou o fone no gancho. O que dissera Christopher ecoava em seus ouvidos.
Nicholas soltou um gritinho, e ela se virou, sorrindo para o garoto atravs de uma nuvem de lgrimas.
 Seu papai disse que estar logo conosco, amorzinho.
O menino esboou seu sorriso to inocente, capaz de enternecer as pedras.
 Voc ama seu papai, no , Nicholas? E ele te ama, querido. Sim, papai te adora.
E Nicholas gargalhou e deu-lhe um tapinha.
Alessandra tomou o beb nos braos e beijou-lhe o rosto, inalando o perfume suave, tentando ignorar uma voz interior que teimava em dizer-lhe que o tempo corria, lesto, para ela. E que no havia nada que pudesse fazer a respeito.
 Gostaria que voc desse uma olhada nisto  Christopher falou ao juntar-se a Alessandra na sala de estar, aps banhar Nicholas e coloc-lo para dormir.  So as respostas ao anncio para baby-sitter.
Alessandra sentiu um frio correr-lhe a espinha.
 Leu-os, Christopher?  Inclinou-se para a frente a fim de pegar os papis.
 Era o que eu ia fazer quando voc telefonou. Leia e d-me sua opinio.
Christopher foi at a lareira e avivou o fogo.
No decorrer dos vinte minutos seguintes, Alessandra leu as cartas que acompanhavam currculos de candidatas, achando apenas quatro adequadas para uma entrevista.
 Estas aqui tm boas referncias e qualificaes.  Estendeu as folhas para Christopher.As demais no possuem experincia suficiente. Pelo menos esta  minha opinio.
Christopher apegou as cartas e estudou aquelas que foram recomendadas por Alessandra.
Concordo com voc. Acertou na mosca. Pedirei a Sally que ligue para elas amanh e marque um horrio com cada uma.
Fez uma pausa e encontrou o olhar de Alessandra.
 Obrigado, mais uma vez.
 Sem problemas. O bem-estar de Nicholas  importantssimo para mim.  Alessandra ficou satisfeita com o que disse Christopher.
 Meu filho sentir falta sua.
 E eu, dele.  Alessandra estava rouca por causa da emoo reprimida.
"E vou sentir saudade de voc, Christopher". Ento, virou-se para as labaredas, pois temia revelar seu desejo, caso encarasse Christopher.
 Claro, voc sabe que ser bem-vinda aqui, quando quiser nos visitar.
 Obrigada.
 Voc me surpreende... Atnita, Alessandra o fitou.
 No entendi, Christopher.
 Aps tudo por que passou, ainda mostra-se forte. Alessandra sentiu vontade de chorar.
 Tem sido difcil, Christopher, no nego. No entanto, a vida continua, e no seria justo para com Nicholas que eu ficasse me arrastando durante todo o dia com pena de mim mesma.
Observou as chamas e suspirou.
 Paula e eu tnhamos nossas diferenas, mas eu a amava. Ela sempre ter um lugar especial em meu corao.
 E no meu tambm  Christopher acrescentou, com suavidade.
Alessandra no teve mais dvidas. O comentrio confirmava que Christopher esperara que a visita de Paula pudesse ter conduzido  reconciliao. As lgrimas, enfim, escorreram por seu rosto.
Ao v-las, Christopher deixou os papis de lado sobre a mesinha lateral e ajoelhou-se no cho, diante dela.
 Alessandra, desculpe-me. No quis faz-la sofrer. Enxugando as faces, Alessandra meneou a cabea.
 Estou bem, no se preocupe.
Desejava tanto que Christopher a tomasse nos braos para confort-la, assim como fizera na noite da morte de Paula!
Duvidava de que pudesse se esquecer de como fora estar colada a Christopher, sentindo sua proteo e fora.
 Aqui est.  Christopher lhe estendeu alguns lenos de papel que apanhou na mesa prxima. Levantando-se, moveu-se para sentar-se ao lado de Alessandra.
Ela aceitou o oferecimento e, trmula, virou-se para encarar o pai de seu sobrinho.
 Perdoe meu descontrole, Christopher. No sei o que deu em mim.
 Ei, no faa isso! Deixe o pranto rolar quando for necessrio. Essa  uma maneira de atenuar a melancolia e o pesar.
Christopher recriminou-se por ser a causa daquela demonstrao de tristeza. Parecia que ultimamente adquirira o pssimo hbito de aborrec-la.
A vontade de traz-la para bem junto de si e confort-la era quase irresistvel. Mas, de repente, sentiu medo.
Temia as emoes que Alessandra lhe evocava. Algo lhe dizia que apenas abra-la no seria suficiente.

CAPTULO X

Alessandra sentou-se ao ar livre, com o caderno de rascunho no colo.
Chovera durante a maior parte da manh, mas as nuvens, pouco a pouco, se mudaram para o mar, e o sol fazia um valente esforo por iluminar o que restava do dia.
Alessandra deu os toques finais no esboo no qual estivera trabalhando durante a ltima hora, satisfeita por ter conseguido capturar a expresso de amor no rosto de Christopher sentado na cadeira de balano com Nicholas nos braos.
Olhando para o desenho detalhado, viu-se desejando que Christopher a fitasse daquele jeito. Ento, em seu ntimo, admoestou-se por ser to sonhadora.
Havia se passado quase uma semana desde que Alessandra lera os currculos que Christopher trouxera para casa. Presumia que ele j tivesse agendado as entrevistas, mas nada conseguira saber de concreto.
Alessandra tinha conscincia de que estava evitando de propsito o assunto porque a simples idia de outra pessoa cuidando de Nicholas, alimentando-o, ninando-o at dormir, amando-o, dilacerava seu corao.
Quando a campainha tocou, pegou seu caderno e apressou-se para dentro da residncia.
Colocou-o sobre a mesa da cozinha e foi para a porta da frente.
 Ol, Maggie! Como vai?
 Estou bem! Espero que eu no tenha resolvido vir visit-la num momento ruim.
 Nada disso. E timo v-la. Por favor, entre.
 Espero que voc no se importe por eu ter aparecido sem telefonar antes.  Maggie deu um passo para dentro.
 Evidente que no.  Alessandra, na verdade, sentia-se muito feliz pela companhia, mas insegura quanto ao que dizer.
Christopher lhe contara que planejava conversar com Dylan e Maggie, explicando-lhes que ela ia partir. Mas Alessandra no tinha certeza se Christopher j havia abordado o assunto com os amigos.
 No trouxe Dylan Jnior com voc?  Alessandra ficou desapontada por no ver o filho de Maggie.  Os dentinhos, afinal, resolveram nascer?
 Acredita que acordei diversas vezes durante a noite por causa dele, e esta manh percebemos que ambos os dentes inferiores apareceram?
 Acho que isso explica a inquietao de Dylan ultimamente. Pobre garotinho...
 E que tal pobre de mim?  brincou Maggie ao seguir Alessandra at a cozinha.  Disse a Dylan que estaria de volta em dez minutos. Preciso apenas de um pouco de companhia feminina, para variar.
Alessandra lhe sorriu por sobre o ombro.
 Tem tempo suficiente para uma xcara de ch?
 Pode estar certa!.  Tirou a capa de chuva e a deixou sobre uma das cadeiras da cozinha, sentando-se.  Onde est Nicholas?
 Dormindo.
 Christopher falou que voc est partindo.
  verdade.  Alessandra a estudou com cautela.
 E tambm nos disse o motivo de sua partida, embora nem precisasse.
 Entendo...
Era tudo o que Alessandra podia dizer. Se Maggie e Dylan sabiam que ela no era Paula, que fingira ser a irm gmea, no podia culp-la por estar aborrecida ou brava por ter sido enganada.
 Sabe,  engraado, mas, desde o instante em que atendeu ao telefone naquele dia, eu soube que havia algo diferente em voc.
 Maggie, desculpe-me. Espero que possa me perdoar por ter mentido para voc. Minha nica desculpa  que achei que fazia algo pelo bem de Nicholas.
 Eu compreendo, Alessandra, no se preocupe. Christopher admitiu que jamais devia ter feito com que acreditssemos que ele e Paula estavam casados. Christopher sabia que era errado, mas supunha que, a sua maneira, estivesse tentando proteger o filho ainda no nascido.
 Alessandra assentiu, contente por os amigos de Christopher serem to compreensivos e generosos.
 Alessandra, gostaria que soubesse o quanto lamentamos a morte de Paula. E tambm sua partida.
 Obrigada.
No merecia a compreenso de Maggie, mas estava feliz por receb-la.
 O que  isto?
Alessandra virou-se ao ouvir a indagao, a tempo de ver Maggie abrindo o bloco de esboos que ela colocara sobre o tampo.
 Nossa, como so bons! Christopher mencionou que voc era ilustradora de livros infantis.  isso mesmo?
 Sim.  Alessandra desejou pegar o caderno de volta antes que Maggie achasse o desenho de Christopher.
 Veja! Este de Christopher e Nicholas est maravilhoso!  Maggie demonstrava sincera admirao.  Voc os desenhou com tamanho amor...
Parou de repente e encarou Alessandra.
 Christopher viu isto?
 No!  Alessandra respondeu um pouco alto demais, colocando uma xcara com o pires diante de Maggie.
 Alm do mais, so apenas esboos.
Alessandra pegou o bloco e o fechou, pondo-o de lado. Durante todo o tempo, sentiu que Maggie a observava com muita ateno.
 Christopher falou que est contratando uma bab para Nicholas.
Alessandra prendeu a respirao.
 Sim.
Virou-se para o fogo e colocou um saquinho de ch dentro da chaleira.
 De fato, Christopher estar entrevistando candidatas, em breve. Se j no comeou a fazer isso. E, assim que escolher algum, eu voltarei para San Francisco.  Alessandra, num grande esforo, conseguir manter o tom de voz quase neutro.
  isso mesmo que voc quer? Voltar para San Francisco?
 Sem dvida.  Entretanto, evitou o olhar de Maggie ao colocar a chaleira na mesa.  Por que pergunta?
 Porque, aps ver o desenho que voc fez de Christopher, eu diria que deixar este lugar  a ltima coisa que deseja na vida.
Alessandra encarou a amiga.
 No compreendo.
  bvio.
 O que  bvio? Maggie a fitou com carinho.
 Que voc est apaixonada por Christopher, meu bem.
 Isso  ridculo!
 Ah, ?
 No estou apaixonada por Christopher  Alessandra se expressou com uma calma que estava longe de sentir.
 Quero dizer, no posso estar apaixonada por ele  acrescentou, parecendo menos confiante.  No quero estar.
A cada nova frase, o sorriso de Maggie ampliava-se. De sbito, Alessandra se deu conta de que a amiga tinha razo.
Amava Christopher, adorava tudo nele: sorriso, calor, fora, compaixo e comprometimento para com Nicholas.
 Acho que isso  sensacional.  Maggie serviu a bebida revigorante para ambas.  E quanto a Christopher, nunca o vi to feliz.
Alessandra sentia-se prestes a chorar.
 Maggie, o que eu vou fazer?
Antes que pudesse obter a resposta, o telefone tocou.
Imagino que seja Dylan.  melhor eu beber isto aqui depressa.
Maggie ficou em p e pegou a capa de chuva.
 Diga-lhe que estou a caminho  acrescentou quando o telefone tocou pela segunda vez.  Alessandra... Christopher  um homem de muita sorte.
Alessandra alcanou o aparelho.
 Al!
 Alessandra?  Rupert Berrisford. Espero no a estar incomodando.
 Sr. Berrisford! Mas que surpresa!
Alessandra ligara para seu editor, Brad Potter, alguns dias atrs para inform-lo de onde estava, mas jamais esperou receber um telefonema de Rupert Berrisford, o editor-geral da Publicaes Berrisford.
 Uma surpresa agradvel, espero. Eu mesmo quis lhe telefonar para lhe contar a novidade, Alessandra.
 E qual , sr. Berrisford?
 Tivemos um pedido de um de nossos autores que renovou o contrato. Falou que est interessado em seu trabalho. Quer que faa as ilustraes para seu novo projeto.
  mesmo? E quem  o autor?
 Jake Jones.
 Jake Jones? O homem que escreve aqueles livros infantis maravilhosos e divertidos?  Alessandra gostaria de no parecer to animada, mas aquela oportunidade era tudo por que sonharia um profissional de sua rea.
 Ele mesmo! Jake criou um novo personagem. Est muito animado a respeito, e ns, como seus editores, tambm,  evidente. Disse-me o quanto admira suas ilustraes e que gostaria que voc lesse seu ltimo manuscrito e fizesse esboos para o projeto. Est interessada?
Alessandra nem conseguia encontrar a prpria voz. Sua cabea girava, ainda tentando digerir a novidade de que Jake Jones admirava seus desenhos.
 Claro que estou interessada!  exclamou, a excitao vibrando em cada fibra.
 timo! No foi to difcil, foi?  Berrisford brincava, certo de que dera uma tacada de mestre.  E, Alessandra, deixe-me dizer que tanto Brad quanto eu temos plena confiana em voc e em seu trabalho. Sabemos que est  altura do desafio.
 Obrigada, sr. Berrisford.  Alessandra estava radiante e emocionada com o apoio.
 Vamos pr mos  obra logo, logo. Pode ser que demore uma ou duas semanas ainda. Jake est no Colorado neste momento, mas, assim que retornar, farei com que Brad entre em contato com voc para lhe dizer quando esperar o manuscrito.
 Combinado. E obrigada mais uma vez, sr. Berrisford.
Alessandra, bem devagar, recolocou o fone no gancho.
Devia estar saltitando de felicidade. Mas j podia sentir que sua excitao, como um balo com pouco gs, comeara a baixar.
Acabara de receber a oportunidade de sua vida, a chance de trabalhar com um escritor que admirava muito. Ento por que sentia-se to perdida e vazia?
Porque no bastava, seu corao lhe revelou. Maggie a forara a encarar a realidade, que vinha, a todo custo, evitando.
Amava Christopher com uma profundidade de emoes que nunca imaginara antes. E, embora sua profisso lhe trouxesse muita satisfao, o que queria era ficar em Grace Harbor e ser a me de Nicholas. E uma esposa para o papai do garoto...
Eram quase cinco e meia quando Christopher chegou. O cheiro de alho e organo o saudou na garagem, fazendo-o salivar.
Ao entrar na cozinha, ouviu algum cantando. A viso de Alessandra, usando cala jeans justa e suter azul-claro, valsando de l para c com Nicholas nos braos, o fez estacar.
Ela nunca lhe pareceu mais linda ou desejvel. Seus olhos cintilavam como esmeraldas, as faces mostravam um delicado tom rosado, a boca... Ah, a boca!
Christopher tivera uma breve amostra do que era o paraso na noite em que a beijou. Um beijo que ele fora incapaz de apagar de seus pensamentos, to sensual e ertico, to selvagem que a mera recordao deixava seu corpo em brasa, tamanho o desejo.
Ultimamente no vinha dormindo bem, aoitado pelos sonhos com Alessandra. Imaginava-se beijando-a, fazendo amor com ela. Os sonhos eram to vvidos que acordava toda manh com os lenis revoltos, os braos vazios e o peito dolorido.
  uma festa particular ou eu posso participar tambm?  Christopher esforou-se por parecer tranquilo, tentando ignorar a volpia que o assanhava.
Ao ouvir Christopher, Alessandra parou de danar, e seu corao disparou em uma reao instantnea. Esforou-se por manter um sorriso nos lbios.
 Ol, Christopher. No vimos voc chegar.
"Deus, ser que at ficar bem velhinha vou ficar vermelha como um pimento s de sentir a presena dele?"
 Eu estava mostrando a Nicholas como valsar.  Respirou fundo para recuperar o flego.
Christopher achou graa.
 Voc no acha que este rapazinho  um pouco jovem para ter lies de dana? No deveria aprender a caminhar primeiro?
O brilho de divertimento nos olhos de Christopher fez a pulsao de Alessandra acelerar ainda mais, despertando vontades proibidas.
Temendo que percebesse atravs de sua expresso o que se passava em seu ntimo, Alessandra fitou Nicholas.
 Voc gostou de danar com a titia, no  mesmo, querido?
Parecendo compreender, o beb esboou seu lindo sorriso sem dentes.
Christopher gargalhou.
 Sabe, eu sempre quis aprender valsa. Talvez voc possa me ensinar um ou dois passos.
Alessandra sentiu a boca seca diante da sugesto. O pensamento de estar nos braos de Christopher, seus corpos se tocando, causava-lhe uma sensao estranha.
 Desculpe-me, mas esta professora aqui terminou por hoje o expediente. Poderia ficar com Nicholas enquanto ponho o jantar na mesa, Christopher?
Em instantes, Alessandra servia espaguete, salada verde e po com alho.
 Este molho est delicioso, Alessandra. Mate minha curiosidade: onde aprendeu a cozinhar?
 Mame nos ensinou quando ramos meninas.
 Sua me ensinou voc e Paula a fazer comida?
 Bem, era essa a idia, mas Paula s estava interessada em assuntos relacionados a cinema e teatro.
 Deve ter sido difcil para sua me cuidar de gmeas. Sei o quanto um beb requer ateno.
 Papai ajudou muito. Mas mame queixava-se vez e outra por causa do trabalho que dvamos. Sobretudo Paula. Minha irm era muito mais aventureira, s vezes at inconsequente...  Alessandra parou de falar de repente.
 Alessandra, perdoe-me.
 No, Christopher, est tudo bem. Fico triste em saber que, embora Paula fosse minha irm gmea, no ramos to prximas quanto eu gostaria que fssemos. Ela sempre estava ansiosa por tentar coisas novas, e ficava impaciente comigo por eu no acompanh-la.
Baixou o olhar, imersa no passado.
 Nunca pude compreender o motivo de Paula querer ser atriz  prosseguiu Alessandra.  Depois que terminamos o ensino fundamental, ns nos separamos. Acho que eu devia ter lhe dado mais apoio; mantido um contato prximo com ela, procurando mais...
 Est sendo dura consigo mesma  Christopher a interrompeu, com suavidade.  No foi responsvel pelo que Paula escolheu fazer com seu destino. Ela sabia o que queria e foi atrs. Embora as qualidades dela pudessem ter sido diferentes do que as suas ou as minhas,  preciso admir-la pela coragem e determinao com que perseguiu seu sonho.
Christopher estava sendo gentil e generoso, e mais uma vez deu a Alessandra a impresso de que desejara ter Paula de volta para que trabalhassem as diferenas que havia entre eles e pudessem manter a famlia intacta.
De repente Nicholas se ps a chorar, e Christopher, que terminara de comer, virou-se para o filho.
 Acho que este garotinho est tentando me dizer que  hora de seu banho, Alessandra. Quer mergulhar na banheira, no  mesmo, Nicholas? O que acha de eu colocar meu snorkel?
Nicholas emitiu um som em resposta  voz do pai, e Alessandra adorou a cena.
Mas, ao levantar-se da cadeira para apanhar os pratos, no pde fazer de conta que no notava uma dor aguda, diante da iminente separao.
 Nicholas estava exausto esta noite  comentou Christopher quando juntou-se a Alessandra na cozinha, meia hora mais tarde.  Obrigado por ter levado a mamadeira l para cima.
 No foi nada.  Alessandra arrepiou por causa de sua proximidade, quando ele se encostou na pia a seu lado.
 Agradeo pelo jantar. Estava delicioso. A propsito, voc foi um anjo por ter lavado a loua.
Christopher limpou a mamadeira de Nicholas. Ansiosa por colocar alguma distncia entre os dois, Alessandra pegou a toalha de mo e deu um passo para trs.
 Uma mquina de lavar torna tudo mais fcil  disse, afastando-se.
 Alessandra, eu gostaria de tomar uma taa de vinho. Voc me acompanha? H uma garrafa na prateleira a atrs.  Christopher deu um passo adiante.
A inteno de Alessandra fora passar debaixo do brao dele e escapar, mas calculou mal a proximidade de Christopher e, em vez de evit-lo, acabaram colidindo.
 Meu Deus!  Christopher exclamou ao contato.
O impacto fez Alessandra retroceder, e teria batido no balco, no fosse o rpido reflexo dele, que segurou-a e a puxou para a segurana de seu peito.
Premida de encontro  musculatura firme, Alessandra no conseguia nem se mover nem respirar. Durante alguns segundos, ficaram em p, unidos num abrao sem paixo.
Poucos momentos atrs, Alessandra ansiara por sentir aquelas formas de encontro ao seu corpo. Seu desejo fora realizado, e julgava-se capaz de ouvir o rufar das asas de anjos ao redor, de tanta alegria. Fechou os olhos.
 Alessandra, voc est bem?  Era fcil notar que havia algo mais que preocupao naquela questo.
Ela respirou fundo.
 Acho que sim...
A coliso a enfraquecera, mas a proximidade de Christopher e as emoes que lhe despertavam eram muitssimo mais perturbadoras.
A essncia masculina a envolvia, assanhando seus sentidos e emoes esquecidas.
 Talvez seja melhor voc se sentar  sugeriu Christopher, mas, quando comeou a solt-la, Alessandra cambaleou.
Toda a sala pareceu girar quando seu p esquerdo deixou o cho. Para seu espanto, percebeu que Christopher, como um galante cavaleiro antigo, a tomara no colo. Sem dizer uma palavra, carregou-a pela sala de estar e, com uma ternura que levou lgrimas aos olhos de Alessandra, baixou-a sobre o sof de couro.
 Est melhor, Alessandra?
 Sim, Christopher, obrigada. Voc me tirou o ar, s isso.
 Tem certeza de que foi s?
O olhar de Christopher era intenso. Alessandra no conseguia raciocinar, quanto mais pronunciar alguma frase que fizesse sentido.
Contemplou aqueles olhos afogueados, observando, fascinada, quando um sentimento que no pde decifrar cintilou nas profundezas daquelas ris azuis como o cu. Sua boca ficou seca, e o corao disparou quando Christopher, com vagar, aproximou-se mais.
Ele parecia encantado. A necessidade de descobrir se a lembrana daquele beijo era igual ao que recordava foi mais forte do que sua resistncia.
Sua memria falhou terrivelmente. A diferena entre aquela carcia e os sonhos que o assombraram era como a noite e o dia.
A exploso de calor e luxria que o engolfou tirou-o do prumo. Alessandra tinha gosto de inocncia, mistrio, sensualidade e sensibilidade.
E, quando os lbios de Alessandra se entreabriram de encontro aos seus em ansioso convite, a tentao de perder-se ali para sempre quase o dominou.
Alessandra correspondeu ao beijo de Christopher com todo o amor. Queria-o, precisava dele com desespero.
Quando o carinho foi aprofundado, impelindo-os ao limite da razo, ela teve a certeza de que Christopher tambm a queria.
Os lbios dele deixaram os dela para criar um trajeto quente e mido at sua orelha. Alessandra gemeu em protesto.
  capaz de imaginar o que est fazendo comigo?  A voz de Christopher estava rouca de desejo.
 Sim! Porque faz o mesmo comigo, Christopher. Por favor... eu preciso de voc.
Christopher quase no pde ouvir o apelo de Alessandra, tamanha a excitao que ameaava sufoc-lo.
Christopher sentiu seu autocontrole escapulir. Nunca experimentou vontade to devastadora, tampouco uma emoo to profunda quanto a que aquela mulher lhe despertava.
At aquele momento, sempre manteve curtas as rdeas de sua vida, orgulhando-se de ser capaz de manter sentimentos profundos guardados a sete chaves, nunca permitindo que ningum chegasse perto demais.
Desde tenra idade, aprendera que envolvimento emocional apenas tornava uma pessoa vulnervel e s trazia sofrimento e mgoa.
O que sentia por Alessandra, no entanto, era muito mais forte do que qualquer coisa que experimentara antes. Ela o fazia trilhar por guas no navegadas, adentrar um territrio que era novo e, sem dvida alguma, muito perigoso.
Pela primeira vez em sua existncia, Christopher estava com medo. Apavorou-o se dar conta do quanto se importava, do que podia ter encontrado em Alessandra, do que poderia perder.
Christopher suspirou e tomou flego. Queria-a, sim, mas receava revelar o quanto precisava dela... O quanto a amava.
Livrou-se dos braos de Alessandra e ficou em p, em silncio aconselhando-se a afastar-se. Faria a coisa certa, ou ento acabaria magoando Alessandra.
Um arrepio o tomou diante da expresso de surpresa e confuso que apareceu no lindo rosto dela.
 Quero que me perdoe, Alessandra, no posso fazer isso. No  voc o problema, sou eu.
Christopher passou a mo nos cabelos. Seus pensamentos estavam em um turbilho, cada clula latejando de excitao, mas lutou para encontrar as frases adequadas.
 Voc  to diferente! No  como Paula, e eu...
Alessandra o encarou, aturdida. A infelicidade infinita que observou em seu semblante pareceu querer dilacerar as entranhas de Christopher.
 Alessandra! No... no  o que eu quis dizer... Voc no entendeu...
 Est enganado, Christopher  Alessandra falou com a mesma rapidez com que se ergueu.
Estava em frangalhos, o corpo ainda trmulo pelo desejo avivado por Christopher.
 Entendi perfeitamente.  E, sem mais nada a dizer, virou-se e correu para seu quarto.

CAPTULO XI

Alessandra subiu a escadaria o mais rpido que pde. No parou at atingir seu quarto. Fechou a porta e apoiou-se contra a madeira, deixando-se escorregar, devagar, at o cho. S ento deixou as lgrimas carem.
Baixou a cabea at os joelhos e chorou. No havia alegria em saber que tivera razo. Christopher amara Paula, e ainda estava apaixonado por ela.
Beijara-a apenas porque Alessandra o fazia lembrar-se da irm gmea. Fora tola em achar que Christopher sentia alguma atrao.
Respirou fundo, diversas vezes. Estar nos braos de Christopher fora maravilhoso. To correto... A paixo contida naquele momento a incendiara. Nunca experimentou uma volpia to poderosa antes, e duvidava que viesse a sentir algo assim no futuro.
O pensamento de encarar Christopher aps o que acontecera entre os dois a fez deixar escapar um doloroso gemido.
Algumas horas atrs apenas quisera permanecer em Grace Harbor para sempre. Naquele momento, entretanto, mal podia esperar para partir.
Aconselhou-se a retornar a San Francisco. Seria o melhor para todos. Foi ento que o projeto com Jake Jones pareceu ser sua salvao.
Uma batida  porta a assustou.
 Alessandra! Por favor abra, deixe-me entrar. Precisamos ter uma conversa sria.
O som da voz de Christopher a fez arrepiar-se. Abraando os joelhos de encontro ao peito, prendeu a respirao.
 Alessandra! Por favor!
Ela no disse nada, certa de que ele era capaz de escutar as batidas de seu corao.
Quando, por fim, ouviu passos suaves afastando-se pelo corredor, suspirou, aliviada.
Alessandra teve uma noite horrvel, girando de um lado para outro. Olhou para o relgio de cabeceira. Quase sete horas. Fazia uma hora que observava cada centmetro do teto.
Sabia ser covardia fugir, e imaginar-se deixando Nicholas partia seu corao. Mas, aps o encontro desastroso com Christopher na vspera, sentia a necessidade premente de ir embora e recuperar-se em privacidade.
Alm do mais, Christopher era muito capaz de cuidar de Nicholas e, com o sbado se aproximando, conseguiria ficar sozinho com o menino por alguns dias.
Christopher nada dissera, mas Alessandra presumia que j havia entrevistado as quatro candidatas para o emprego de bab. Tinha confiana de que o pai de Nicholas no teria problemas em escolher a melhor. Desejava apenas que a nova baby-sitter estivesse disponvel para comear logo.
Nicholas comeou a chorar. Alessandra, num gesto automtico, afastou as cobertas e saiu da cama, mas, ao alcanar a porta, ouviu Christopher se aproximando da sute do menino.
Em qualquer outra manh teria descido a escadaria e aquecido a mamadeira de Nicholas, levando-a at seu quarto. Apreciara muito aqueles momentos preciosos que passavam juntos, como uma famlia de verdade.
Entretanto, a probabilidade de isso vir a acontecer no passava de uma fantasia. Fora tola em pensar que poderia se tornar algo mais.
Foi para o chuveiro. A ltima coisa que queria era encarar Christopher. Ficou em p, debaixo do jato de gua quente, desejando poder estalar os dedos e de alguma maneira mgica estar de volta a San Francisco.
Vestiu cala jeans e suter. Secou os cabelos. Minutos depois, escutou uma batida forte  entrada de seus aposentos.
Ignorar Christopher seria rude e infantil, disse a si mesma, por isso desligou o secador e atendeu.
Ele usava terno acinzentado, camisa branca e gravata. Os cabelos estavam midos, a pele do queixo macia e convidativa, e o perfume de loo aps a barba, perturbador, como sempre.
 Desculpe-me por incomod-la, Alessandra. J troquei Nicholas e lhe dei a mamadeira. Vou para Newport esta manh encontrar-me com um cliente. Mas no poderia partir sem certificar-me de que voc estava bem e dizer que lamento o que aconteceu ontem.
 No h motivo.  A sensao de rejeio retornou, insuportvel, fazendo Alessandra sofrer o indizvel.  Ambos andamos muito estressados.
  verdade. Porm, ainda precisamos conversar. Eu gostaria de explicar...
 No h nada a ser explicado, Christopher.
 Discordo. Desejaria poder ficar e elucidar tudo agora. No entanto, preciso ir. Poderemos conversar mais tarde?
Alessandra apenas assentiu. As emoes que lhe causavam um n na garganta tornavam impossvel a emisso de qualquer som.
Alm do mais, Christopher no precisava dizer mais nada. Alessandra j sabia o motivo de t-la rejeitado. Christopher no poderia am-la porque ainda estava apaixonado por sua irm gmea, a me de seu filho.
Aps a partida de Christopher, Alessandra terminou de secar as mechas e deu uma olhada em Nicholas, que estava no bero, mexendo as perninhas e os braos, intrigado, como sempre, com o mbile acima de sua cabea.
Alessandra passou a prxima hora cuidando dele. Cantou, banhou-o, fez com que sorrisse, deliciando-se com a criana que lhe devolvera a paz de esprito e derretera o gelo de suas emoes entorpecidas.
Quando Nicholas adormeceu, Alessandra desceu a escadaria. Notou, atravs da janela da cozinha, que comeara a nevar.
Encontrou a lista telefnica e discou o nmero da estao rodoviria de Grace Harbor. Fez a pergunta e foi informada de que os nibus para Portland partiam s onze horas, s treze e s quinze, todos os dias. Enquanto os nibus para Seattle saam ao meio-dia, catorze e dezesseis horas.
Agradeceu, desligou e consultou o relgio. Eram quase dez. Portland estava fora de cogitao, decidiu, mas poderia partir em direo a Seattle na hora do almoo.
Com tempo suficiente para organizar-se, pegou o telefone, discou para a casa de Maggie e pediu  amiga que cuidasse um pouco de Nicholas.
Empacotou os pertences que trouxera consigo. Viu que Nicholas acordara de sua soneca. Vestiu-o e brincou com o menino, prolongando os ltimos momentos valiosos, sem saber quando voltaria a v-lo.
Do lado de fora, ainda nevava. Alessandra surpreendeu-se em ver que j havia acumulado uma boa quantidade de gelo sobre o solo, mas decidiu caminhar a breve distncia com Nicholas at a residncia de Maggie e Dylan.
Embora Maggie a convidasse para ficar, Alessandra declinou com gentileza, pois no queria perder um nico minuto que fosse.
 Apenas deixe-me dar um beijo de adeus em meu sobrinho.  Alessandra se aproximou mais do beb.
Ao ergu-lo, sentiu lgrimas se formando em seus olhos. Abraou e beijou o garoto que passara a amar como se fosse seu prprio filho.
 Adeus, meu querido  sussurrou contra a bochecha macia.
 Alessandra, voc est bem?
 Estou, Maggie.
 Por que ento esta minha impresso de que o est deixando para sempre.
Alessandra conseguiu sorrir.
  melhor eu ir andando.
 Vejo-a mais tarde. Cuidado.
 Fique tranquila.  Com muito esforo, Alessandra conseguiu esboar mais um sorriso.
Deu um passo para fora e fechou a porta atrs de si.
Ficou parada ao batente por muito tempo, tentando conter o soluo que, sem dvida, desencadearia uma crise de choro, e tentando dizer a si mesma que teria todo o tempo do mundo para chorar quando estivesse de volta a sua casa.
Quando, enfim, alcanou a calada, pegou a mochila que escondera atrs de uma rvore e apressou-se pela rua ndigo, ignorando a nevasca que caa como confete a seu redor.
Chegou  estao de nibus molhada e com frio. Comprou a passagem para Seattle. O nibus partiria em dez minutos.
Foi at um telefone pblico e discou para a casa de Christopher. Aguardou que a secretria eletrnica atendesse e, ao som da voz dele, seu corao se contorceu de dor. Segurou com fora o fone e tomou flego.
 Christopher,  Alessandra. Nicholas est com Maggie. Quando voc receber este recado, estarei a caminho de San Francisco. Ambos sabemos que  o melhor a fazer. Adeus.
Desligou e se foi.
 Algum recado, Sally?  Christopher perguntou ao chegar ao escritrio e limpar o casaco.
 Esto sobre a escrivaninha.
Christopher pendurou o sobretudo no espaldar da cadeira, em sua sala.
Acabava de chegar de Newport. A reunio no fora de todo positiva, devido ao fato de estar distrado pensando em Alessandra e no beijo que partilharam na noite anterior.
Desejava no ter tido o compromisso para poder conversar com ela. Relembrou que os olhos de Alessandra estavam vermelhos, um sinal de que chorara muito.
Christopher sorriu, triste. Ainda no conseguira tirar Alessandra da cabea, no aps a resposta selvagem a sua carcia, algo que fizera seu mundo girar fora de controle.
Acomodou-se na poltrona e pegou o aparelho telefnico. Aps discar o nmero de sua residncia, ouviu o telefone tocar vrias vezes. Aguardou, tamborilando os dedos com impacincia sobre o tampo de madeira.
Quando a secretria eletrnica atendeu, Christopher colocou o fone de volta no gancho, a expresso pensativa. Por que Alessandra no atendera?
Decerto por estar dando mamadeira a Nicholas, disse a si mesmo, procurando manter a calma. Ou talvez tivesse ido dar uma caminhada.
No, era improvvel. Afinal, estava nevando.
Suspirou e voltou a ateno para os recados. Leu-os uma segunda vez, e depois os deixou sobre a mesa.
Apoiou os cotovelos na escrivaninha e baixou a cabea at apoi-la nas mos. Fechou os olhos.
A imagem de Alessandra surgiu em sua memria, com muita confuso e melancolia em seu rosto. Era a mesma que vira quando, num gesto abrupto, rompera o abrao, na vspera.
Por que no fizera amor com a mulher mais incrvel, excitante e linda que j conhecera?
Nunca sentira isso antes, por ningum. Seus leves relacionamentos romnticos duraram poucas semanas ou mseros meses. E nenhum deles lhe provocou o menor trao de sofrimento.
Mas, de alguma maneira, Alessandra conseguira penetrar em suas defesas e se apossar de algo muito profundo. Apaixonara-se por ela, o que o amedrontava sobremaneira.
Amor era algo que Christopher sempre procurara evitar. Aprendera muito cedo que amar algum apenas gerava problemas e desiluses.
Contudo, no instante em que Alessandra entrou em cena, as regras mudaram. Embora o amor que sentisse pelo filho fosse imenso, o que dedicava a Alessandra era mais poderoso.
 Estou louco por ela  Christopher falou, com convico.  E com tamanha intensidade que acho que nunca mais voltarei a ser o mesmo.
Pegou o fone e discou de novo para casa. Seu corao disparou, e uma sensao de alegria o invadiu enquanto aguardava que Alessandra atendesse.
Ao ouvir a mensagem da secretria eletrnica mais uma vez, no entanto, tornou a desligar, com fora.
Minutos mais tarde, resolveu entrar em contato com Maggie, que lhe contou que Alessandra deixara Nicholas com ela algumas horas atrs.
 Alessandra falou para onde ia?
 No, no disse nada, Christopher. Parecia aborrecida quando partiu. Abraou e beijou Nicholas como se no fosse mais voltar.
Christopher sentiu-se enregelar.
 Obrigado, Maggie. Passarei para buscar meu filho mais tarde.
Alessandra estava deixando a cidade, concluiu. Era essa a nica explicao. E, aps o ocorrido entre eles, no podia culp-la.
Ficou em p, agarrou o casaco e saiu de seu escritrio para a calada coberta de gelo, onde estacionara o automvel.
"A rodoviria! Alessandra deve ter ido para l!"
O nibus era o nico meio de transporte para fora dali.
Christopher no dirigira um quarteiro sequer quando foi forado a diminuir a velocidade. A neve deixara o trnsito terrvel, e a rua principal j estava congestionada.
Ficou parado no primeiro farol durante quase cinco minutos antes que os carros  sua frente comeassem a se mover.
Quando parou ao lado da estao rodoviria, o relgio digital do painel mostrava que eram treze e cinquenta e oito.
Deixou o motor ligado e disparou em direo ao guich de passagens.
 Quando parte o prximo nibus para Portland?  indagou  vendedora.
 Saiu uma hora atrs, senhor.
O corao de Christopher bateu mais rpido. Atravs das janelas pde ver trs enormes veculos estacionados do lado de fora.
 Aqueles ali vo partir em breve?
 Apenas o nmero doze. Vai para Seattle. O motorista deve sair a qualquer momento.
Christopher virou-se e correu naquela direo, abrindo caminho at o primeiro nibus. Bateu  porta, rezando para que o motorista no o ignorasse.
Por sorte, o homem cumprimentou Christopher com um sorriso amigvel.
 Voc  um sujeito de sorte. Est exatamente no horrio.
 Espero que sim.  Christopher subiu.  No v a lugar algum por um minuto. Procuro por uma pessoa.
Caminhou pelo corredor, observando os rostos de dzias de passageiros, buscando por Alessandra.
Em um dos ltimos bancos reconheceu uma figura familiar virada para o lado oposto. Sentiu intenso alvio em v-la.
Alessandra se virou, e, dando com Christopher, encarou-o.
Christopher no deixou de notar o cintilar de alegria que danou por um breve momento nas pupilas to expressivas.
 Christopher, o que faz aqui?
 Alessandra, por favor, no v.
Ela sentiu uma incrvel vontade de chorar.
"Mas que coisa! Ou fico vermelha, ou me arrepio, ou choro... Ser que todo o mundo que se apaixona fica suscetvel assim?"
 No posso ficar, Christopher.
 Precisamos conversar. Por favor, Alessandra, no quero que nos deixe.
 Ei, camarada!  disse o motorista.  E ento? Pretende ficar ou descer?
Christopher olhou por sobre o ombro.
 Ns vamos descer. D-nos apenas um segundo.  Virou-se para Alessandra.  Se voc ainda quiser partir depois do que tenho a lhe dizer, prometo que a levarei de carro para onde quiser.
 Senhorita,  uma oferta muito simptica  o motorista interveio.  D uma chance ao rapaz! E, olhe, d uma chance a mim tambm! Estou prestes a perder o emprego, a menos que coloque este nibus na estrada nos prximos dois minutos.
Alessandra hesitou.
 Est bem  concordou, levantando-se.
 D-me sua mochila.  Christopher deu um passo para trs e a seguiu para fora do veculo.  Meu carro est ali.
Christopher segurou o cotovelo de Alessandra, para conduzi-la, rezando para que no tivessem roubado seu automvel.
Atrs dos dois, o nibus partia.
O carro ainda estava ali, por sorte. Christopher abriu a porta, colocou a sacola no banco traseiro e aguardou que Alessandra se acomodasse no assento da frente.
 Para onde vamos, Christopher?
 Para casa.
Parava de nevar quando alcanaram a propriedade. Alessandra j comeava a ser arrepender por ter sido to fraca, admoestando-se por no haver imposto mais resistncia. O que Christopher poderia lhe dizer para faz-la mudar de idia?
Christopher acionou o controle remoto da garagem e estacionou.
Alessandra sentiu um frio na espinha. Parecia que ainda no dia anterior chegara ali pela primeira vez. Na verdade, haviam se passado seis semanas!
Desceram, Christopher tirou o agasalho e ajudou Alessandra a fazer o mesmo.
 Vamos para a sala de estar. Deixou ambos os casacos no caminho. Alessandra parou perto da lareira e virou-se.
 Christopher, no acho...
 Voc concordou em me escutar.
 Est bem.
Alessandra observou o local onde, menos de vinte e quatro horas atrs, Christopher a havia beijado. Escolheu uma poltrona.
Viu-o respirar fundo e ento soltar o ar devagar.
Christopher sentou-se no lado oposto ao dela e entrelaou os dedos. Inclinou-se em sua direo, e ento encarou-a.
 Ontem  noite...
As palavras vieram em um sussurro. Christopher tossiu e comeou de novo:
 O que quero dizer  que, quando interrompi... o que estava acontecendo entre ns, voc achou que fosse porque me fazia lembrar de Paula. No  verdade. Vocs duas no
poderiam ser mais diferentes. Este era o problema.
Alessandra franziu a testa, incapaz de compreender o que ele quisera dizer. Mas, antes que pudesse falar, Christopher apressou-se em prosseguir:
  a pessoa mais generosa, amorosa, leal, devotada, linda e sensual que j conheci, Alessandra. E se no estivesse to zangado no dia em que encontrei voc e Nicholas em San Francisco, se eu no estivesse encantado por ter achado meu filho, teria percebido no mesmo instante que voc no era Paula.
Alessandra continuou a encar-lo.
 Sim, Paula e eu ramos amantes, mas nunca nos apaixonamos. No acreditava no amor. No queria acreditar, entende? At conhecer voc.
Alessandra sentiu um n na garganta.
 O que... est... dizendo, Christopher?
 A melhor coisa que fiz foi traz-la para Grace Harbor. Desde que entrou em minha vida, Alessandra, ensinou-me o que  fazer parte de uma famlia. Estes ltimos tempos foram os mais felizes que tive desde que me conheo por gente.
Alessandra continuou esttica.
 Nunca senti isso por ningum. E no me importo em admitir que a situao me apavora. Foi por isso que resolvi no continuar ontem. Porque o que eu sinto por voc me assusta.
Christopher se levantou e comeou a perambular de um lado para o outro. Ento, parou e virou-se para tornar a encar-la.
 Bem, resumindo, estou apaixonado por voc. Desesperadamente, loucamente. E a simples idia de que no me queira e se afaste de mim para sempre  insuportvel.
Alessandra mal podia acreditar no que escutava. Christopher tinha mesmo dito o que ela julgava ter ouvido? Observou-o e viu medo e amor naquele belo rosto.
 Voc me ouviu, Alessandra. Se quiser partir, eu a levarei para onde queira ir.
 E o que o faz pensar que este seja o meu desejo?  Alessandra, sem saber de onde vinha, encontrou a coragem de se revelar ao homem de seus sonhos.
Christopher passou a mo por entre os cabelos.  Eu confundi tudo, sei disso. Pelo que sei, voc estava prestes a voltar para seu ex-marido... Alessandra se ergueu, de sbito.
 S pode estar brincando!
 Desculpe...
 No estou mais apaixonada por Glen, Christopher. Pensei ter deixado isso bem claro. Duvido que um dia tenha, de fato, amado aquele narcisista. Acho que me encantei pela possibilidade de vir a ser amada, como eu tanto queria.
Christopher fez meno de chegar perto dela, mas ento se deteve.
 Acha que poderia um dia se apaixonar por mim?
A questo, feita com tanta vulnerabilidade, enterneceu Alessandra de tal forma que ela s pde sorrir, desejando aninh-lo no colo e mim-lo, como a um menino.
 Oh, Christopher... Voc no sabe que eu te amo?
Sem que se desse conta, Alessandra se viu arrebatada num forte abrao, tendo os lbios envolvidos com sofreguido pelos de Christopher.
Alessandra submeteu-se ao calor e  paixo que surgia entre os dois como um vulco adormecido havia muito tempo.
Passaram-se vrios minutos at Christopher erguer a cabea para respirarem melhor. Afastou-se um pouco, mas a manteve segura em seu abrao.
 Amo voc, Alessandra. Mais do que julguei ser possvel amar algum.
 E eu te amo tambm  respondeu ela, mal capaz de acreditar que tudo aquilo acontecia de verdade.
 Depois que nos casarmos, voc acha que mudar-se para c trar problemas para sua carreira? Porque ns poderamos tambm nos instalar em San Francisco.
 A natureza de meu trabalho permite que eu more em qualquer lugar. O importante  que fiquemos juntos. Mas fiquei muito feliz com sua preocupao... Ei! O que acabei de ouvir foi uma proposta oficial de casamento?!
Christopher riu.
 No, mas esta .  Com um meneio, ajoelhou-se aos ps de Alessandra e beijou-lhe as mos.  Adorada Alessandra, voc me daria a honra de tornar-se minha mulher?
Os olhos dela ficaram rasos d'gua.
 Sim, Christopher! Sim!
Alessandra fez com que ele se levantasse e beijou-o. Ento, percebeu que o corao de Christopher batia acelerado, em perfeita harmonia com o seu. Com algum esforo, soltou-se, deliciada com o amor e desejo que via cintilando naquele olhar.
 Devamos buscar Nicholas.
 Tem razo.  Christopher beijou-lhe a testa.  Temos algo muito especial aqui, Alessandra, e Nicholas faz parte disto. Sim, Paula teve seus defeitos, mas continuo pensando que voc no estaria aqui, junto de mim, se eu no a tivesse conhecido.
Sorriu e deu-lhe um beijinho no nariz.
 Quando meu filho tiver idade suficiente para compreender, vamos lhe contar a histria de como sua me nos uniu.
Alessandra sentiu um n na garganta.
 Lamento, de verdade, que Paula no tenha tido chance de realizar seus sonhos. Teria sido uma atriz e tanto! Apenas gostaria de saber o motivo de ela ter planejado retornar para c. Seria por causa de Nicholas?
Alessandra suspirou, saudosa.
 Eu lhe pedi para vir.
Christopher arregalou os olhos.
 Achei que minha irm devia dizer a voc pessoalmente a posio que tinha tomado em relao a Nicholas. Paula lhe devia isso, e a mim tambm.
Christopher continuou a fit-la.
 Ela me colocou em uma situao muito desconfortvel, Christopher. No posso afirmar que adorei bancar a falsa esposa.
Christopher pareceu sentir remorso.
 Eu no devia ter enganado meus amigos a respeito de meu relacionamento com Paula. No estava raciocinando direito, s pode ser isso...
Levou a mo de Alessandra aos lbios e acariciou sua palma, num gesto que tirou o flego dela e lhe causou arrepios deliciosos.
 Voc disse "falsa esposa"?  Christopher puxou-a pelo pulso.
Alessandra assentiu.
 Sinto muito, mas esse papel no lhe cabe, meu bem. Quero uma que seja verdadeira.
 Estou to feliz, meu amor!
E, quando a boca de Christopher se apossou da sua mais uma vez, Alessandra correspondeu com todo o amor de seu corao. Sabia que havia encontrado, enfim, a mais completa felicidade.

EPLOGO

Os preparativos para a cerimnia ficaram a cargo de Maggie, que parecia quase to radiante quanto a noiva para pr tudo em ordem, contratando um excelente servio de buf, comprando os arranjos florais para a igreja e mandando os convites a amigos e parentes.
Os pais de Alessandra em breve chegariam da Nova Zelndia, para onde haviam retornado logo aps os funerais de Paula. Desde que souberam da existncia de Nicholas, sempre mandavam cartas para saber como estava seu nico netinho.
Alessandra no cabia em si de felicidade. Como se no bastasse Christopher ser lindo, bom carter, rico e ador-la, era um amante fabuloso. Toda noite ela adormecia exausta pelas muitas horas que dedicavam  arte do amor.
Por isso, junto com suas tarefas de me, acabou perdendo alguns quilos, o que a tornou ainda mais esbelta e elegante.
Jake Jones ficou encantado com os esboos de Alessandra para seu novo livro, e props um contrato de exclusividade, que ela aceitou na hora. Os livros dele vendiam como gua, e dar vida aos personagens to imaginativos e ricos era tudo pelo que uma profissional de seu gabarito poderia sonhar.
A belssima casa que se tornara seu lar tinha agora mais um morador: Fritz, um gato vira-lata, que surgira de mansinho, passando a fazer companhia a Alessandra todas as tardes, quando ela se instalava no jardim para se dedicar ao trabalho.
O animal ficava ao seu lado, em absoluto silncio, e, quando Alessandra conversava com ele ou afagava suas orelhas, Fritz ronronava to alto que a fazia rir.
Um dia, Alessandra resolveu convid-lo para entrar e servir-lhe leite, e ento o bichano nunca mais saiu de l. Alessandra, ento, resolveu dar-lhe um banho, visto que, como gato de rua, Fritz tinha o plo imundo e emaranhado. Qual no foi sua surpresa quando ele no esboou a menor resistncia ao ser colocado numa grande bacia com gua morna e ver-se devidamente ensaboado?
Desde ento, Fritz tornou-se seu protegido e grande companheiro. Alessandra costumava dizer que ele era a fonte de sua inspirao. Bastava o gato acomodar-se junto dela no gramado para que as idias flussem aos borbotes.
 Este danadinho me d sorte! Alm disso,  to carinhoso!
No comeo, Alessandra teve medo de deix-lo perto de Nicholas, pois temia que, sem querer, o gato acabasse arranhando o beb. Mas, mais uma vez, se surpreendeu. Fritz jamais colocava as garrinhas para fora quando Nicholas se aproximava, e at mesmo chamava a ateno de todos, miando alto, quando achava que o menino corria o menor risco de se machucar.
 Este gato  especial, no resta a menor dvida.
 Pode ser, querida. Entretanto, o que eu acho  que ele quer demonstrar gratido. No  todo dia que algum "adota" um animal abandonado e lhe d um lar e uma famlia.
 Isso foi fcil. Fritz  um gato lindo, amoroso... e adora Nicholas!
As semanas passaram muito rpido, e o dia do casamento chegou.
Alessandra estava radiante, sendo ajudada por Maggie e Sally a se preparar.
 No sei por que vocs insistiram tanto para que a cerimnia se realizasse na igreja. Acho que em nosso gramado seria mais romntico e prtico.
 Ora, Alessandra! Mas em seu jardim no cabe nem um tero das pessoas que convidei!
 No diga mais nada, Maggie!
Alessandra estreitara muito a amizade com Maggie e Sally, que se mostraram pessoas doces e leais, prontas a estender-lhe a mo ao menor apuro. Como naquele momento, em que se achava incapaz de raciocinar com clareza.
 Em meu casamento com Glen, houve tanta pompa! Ainda bem que tudo agora vai ser mais simples.
 Sempre achei que a simplicidade  muito mais elegante  disse Sally.  S os esnobes gostam de espalhafato.
Alessandra no pde deixar de rir. A franqueza de Sally era algo que a chocara no comeo, pois chegava a ser rude.  que a boa senhora no se preocupava com o verniz hipcrita da sociedade, nem se importava de escolher melhor as palavras. Mas era capaz de arrastar um caminho nas costas pelos amigos, e at por gente estranha que viesse a precisar dela.
 Tem razo, Sally. Pelo menos no que se refere a Glen. Graas a Deus, me livrei dele.
 Muito bem, muito bem  Maggie interveio.  Mire-se no espelho, meu anjo, e diga o que v.
Alessandra se levantou e foi observar seu reflexo. Ficou boquiaberta com o resultado.
 Meu Deus! Vocs realizaram um milagre! Eu estou linda!
 No seja boba! Voc  linda.  Sally ergueu uma sobrancelha e meneou a cabea.  S o que fizemos foi realar seus traos perfeitos. E este vestido maravilhoso faz suas curvas suaves ficarem to voluptuosas! No haver um nico homem que no se curve a seus ps hoje.
 Que graa! Alessandra ficou vermelha!
 Pare, Maggie! Vocs duas so terrveis!
Jesus, Alegria dos Homens, de Bach, ecoava pela nave da igreja,  sada da noiva. Mary Nelson, a me de Alessandra, enxugava as faces, agora molhadas por lgrimas de felicidade.
 O que  o destino, Matt...  Mary conversava com o marido, muito emocionada.  Perdemos nossa Paula, mas ganhamos um neto, que agora ser filho de Alessandra.
 Eu sempre digo, querida, que, por mais que queiramos mudar o rumo das coisas, o que est escrito no se modifica.
 Parece que voc tem razo, amor.
Todos seguiram para o salo que fora alugado para a festa.
Logo, uma orquestra comeou a dar os primeiros acordes de Moonlight Serenade, e muitos casais se apinharam na pista, de rosto colado.
Aps receberem os cumprimentos, Alessandra e Christopher tambm foram danar.
 Ainda bem que escolhi um vestido confortvel. No ia ser fcil rodopiar com quilos de tule em cima de mim.
 J lhe disse o quanto voc est maravilhosa, Alessandra?
 No. At pensei que no tivesse aprovado a noiva...
Em resposta, Christopher deu-lhe um beijo de tirar o flego.
 Isto, mocinha,  para que nunca mais diga tolices como, essa. Se no falei nada antes foi porque no consegui articular um nico som, por estar embasbacado demais para isso.
 Oh, Christopher!  Alessandra o apertou, sentindo-se radiante.
Quando pararam para descansar, Mary aproximou-se da filha e sussurrou-lhe algo.
 Querido, venha comigo. Mame me disse que Jake Jones acaba de chegar! Vamos receb-lo.
Jake, um tanto deslocado, estava a um canto do salo, bebendo uma taa de champanhe. Esboou um sorriso largo ao ver os noivos vindo em sua direo.
 Alessandra! Christopher! Perdoem-me por no ter chegado a tempo para v-los na igreja.
 No tem importncia, Jake. Estamos lisonjeados por voc estar aqui conosco.  Alessandra deu-lhe um abrao afetuoso.
Em seguida, Jake estendeu a mo a Christopher.
 Eu jamais deixaria de comparecer a um momento to importante na vida de minha ilustradora predileta!
Ento, Sally Cooper foi ter com eles. Ao deparar com Jake, por incrvel que pudesse parecer, enrubesceu.
Alessandra notou o embarao da amiga, sem atinar com o motivo. Discreta, apresentou-os:
 Jake, quero que conhea nossa amiga Sally. Ela  tambm secretria de Christopher.
Jake encarou Sally, e um brilho diferente surgiu em seu olhar.
 Como vai, Sally? Bem, pelo que vejo, Alessandra, s convidou gente bonita e interessante, hein?
A colorao de Sally chegou prxima ao roxo. Alessandra, por pouco, no deixou escapar uma gargalhada.
 Com licena, Jake, preciso ver se os demais convidados esto sendo bem servidos. Deixo-o em excelente companhia. Vamos, amor?
E Alessandra afastou-se com o marido.
 Foi impresso minha ou surgiu um clima entre eles?  Christopher perguntou, assim que se viram a ss.
 Nem fale! Jamais pensei que um dia fosse presenciar nossa Sally mudando de cor!
 Jake tambm me pareceu bastante impressionado.
 Eu adoraria que os dois se entendessem. Imagine que casal fantstico eles formariam!
A comemorao se estendeu at o raiar do dia. Jake e Sally no se desgrudaram um s instante, e todos os presentes estavam torcendo para que o prximo matrimnio fosse mesmo o deles, como vaticinou o buqu atirado pela noiva, que cara ao colo da secretria de Christopher.
Exaustos, os noivos se recolheram aos aposentos. Nicholas dormia em seu bero, assistido por uma excelente baby-sitter que o casal contratara para a ocasio.
 Acho que devemos dormir um pouco, querido. Ao meio-dia sair nosso vo para a Grcia.
 Ainda bem que seus pais se prontificaram a cuidar de nosso menino durante a lua-de-mel. Eu no o deixaria por tanto tempo com mais ningum.
 De jeito nenhum. Ser timo para todos. Papai e mame descansaro aqui, em meio  natureza, e tambm cuidaro de Fritz. No quero que ele se sinta abandonado outra vez, pobrezinho. Aquele gato j sofreu muito.
 Voc tem um corao de ouro, sabia?
Christopher beijou-a, e em instantes o cansao dos dois cedeu lugar ao fogo, sempre presente quando eles se tocavam.
 Alessandra, que tal se deixssemos para dormir no avio?
 Excelente idia!
Assim que voltaram da viagem inesquecvel s ilhas gregas, Alessandra e Christopher tiveram a grata surpresa de saber que os amigos Jake e Sally haviam marcado a data de seu enlace para dali a trs meses.
 J, Sally?!  Alessandra abraou a amiga.  Mas estivemos fora por apenas quarenta e cinco dias!
 Concordo com Jake: por que esperar, se sabemos to bem o que queremos? J tenho cinquenta e trs anos, Alessandra, e nunca me casei. Tive dzias de namorados, mas nenhum foi capaz de fazer com que me sentisse tmida como uma adolescente. Jake e eu somos capazes de saber o que o outro pensa at mesmo a distncia. No tenho dvida de que nascemos para ficar juntos.
 Querida, estou to contente! Merece tudo de bom, Sally!
 Prometa que voc e Christopher sero meus padrinhos.
 Ora! Alguma dvida?!

Dois anos depois...

Alessandra seguiu Christopher para o andar superior. Ele estava com Nicholas nos braos.
Christopher colocou o menino na cama nova e o cobriu. Sorrindo diante da figura adormecida, beijou a testa do garoto.
 Boa noite, rapaz.
Alessandra fez o mesmo que o marido e, afastando mechas da testa de Nicholas, beijou a bochecha rosada.
 Boa noite, querido. Durma bem. Ns o amamos.
Alessandra seguiu Christopher pelo corredor at o quarto deles.
 Christopher? A que horas Maggie e Dylan vm nos buscar?
 Daqui a mais ou menos trinta minutos. Por qu? Alessandra se virou e sorriu.
 E Jenny no chegar em menos de quarenta, certo? Christopher franziu a testa.
 Acho que sim. Tem algo em mente, meu bem.
 Digamos que isso nos dar bastante tempo...  O sorriso de Alessandra se intensificou.
 Tempo para qu, amor?
Christopher observou o cintilar de algo especial nos olhos verdes da esposa.
 Para eu lhe dar seu presente.
Alessandra viu o marido aproximar-se.
 De que se trata? Hoje no  meu aniversrio...  Tomou-a nos braos e comeou a beijar a pele sensvel perto da orelha.
Alessandra perdeu o flego. Enlaou-lhe o pescoo e roou seu corpo no do marido, sentindo-se ferver de antecipao.
 Fale, Alessandra. Vai me presentear com o qu?  ele sussurrou ao ouvido dela, deixando-a arrepiada.
 Eu estou grvida.
Christopher ficou esttico, e ento afastou-se para fit-la. Sua boca se abriu e fechou diversas vezes, mas nenhum som foi emitido.
Alessandra deu um saltinho, excitada.
 Nicholas deixar, em breve, de ser filho nico, Christopher. Voc ser papai de novo. Vamos ser pais...
Christopher a silenciou com um beijo to terno, to amoroso e com tanta reverncia que as pernas de Alessandra bambearam.
 Desde quando voc sabe, Alessandra?
 Desde esta manh. Fui ao mdico na semana passada, fiz todos os exames e...
 Precisamos mesmo sair esta noite?  Christopher se queixou ao beij-la outra vez.  No poderamos ficar em casa e... bem... comemorarmos?
Alessandra achou graa.
 Creio que sim. Por que no telefona para Maggie?
Christopher deixou escapar um suspiro.
 Farei isso. Cus, um filho com voc! O que mais eu poderia querer para ser um homem realizado?
 Eu sei a reposta. Christopher arregalou os olhos.
 Pois ento, me diga, porque no fao a menor idia.
 Sero dois filhos.
Christopher, com incrvel suavidade, pousou a mo espalmada sobre o ventre liso de Alessandra. Sentiu que, se dissesse uma palavra sequer, choraria, tamanha a emoo que lhe ia no peito.
 Eu devia ter imaginado. Gmeos... Como voc e a me de Nicholas... Esta  uma graa que terei de agradecer enquanto eu viver, meu amor.
  mesmo uma grande bno.
 Tomara que seja um menino e uma menina. Haver um companheirinho de brincadeiras para Nicholas e uma garota para os dois tomarem conta.
Alessandra riu alto, exultante com a empolgao do marido.
 Quanto tempo voc disse que tnhamos?
 A vida toda  Alessandra respondeu, antes de entregar-se com paixo.

FIM

Dicas

Tenho sempre dores de cabea na semana anterior  menstruao. Existe algum tratamento preventivo para isso?
As dores de cabea pr-menstruais, bastante comuns, tm causas que ainda no so completamente conhecidas. Alguns mdicos apontam o excesso de lquido que se acumula no corpo antes do incio da menstruao como origem do processo. Outros justificam essas dores pelo desequilbrio dos nveis hormonais. Algumas vezes um medicamento diurtico  que facilita a secreo da urina  ajuda a aliviar as dores de cabea pr-menstruais.

Meu irmo teve uma terrvel dor de cabea nas frias escolares do ano passado e recentemente sofreu outra crise semelhante. Ele precisa ir ao mdico?
Uma dor de cabea realmente forte em algum que no sofre habitualmente desse mal pode indicar algum problema no interior do crnio, mas pode tambm ser sintoma de enxaqueca. Um exame determinar a causa.

Meu beb tem se mostrado bastante irritvel e choro. H alguma maneira de saber se ele anda sofrendo de dores de cabea?
Em bebs, o choro que no cessa, mesmo quando a criana est de estmago cheio e trocada, significa sempre um sinal de dor. Mas  impossvel,  primeira vista, uma identificao clara de onde a dor se manifesta. O mdico examinar, ento, ouvidos e garganta, para ver se no h alguma infeco do ouvido mdio que possa estar provocando dores de cabea.
Mesmo nas crianas mais velhas  difcil detectar exatamente o lugar da dor, porque elas no tm muita noo de sua prpria anatomia, e uma dor de cabea pode ser descrita como dor de barriga ou dor de dente. Por estes motivos, a criana ou o beb que chore continuamente deve ser levado ao mdico.

MOYRA TARLING nasceu em Aberdeenshire, Esccia. L foi apresentada  leitura de romances e tornou-se aficcionada pelo gnero. Em 1968 imigrou para Vancouver, Canad, onde conheceu e casou-se com seu marido. Tm dois filhos adultos. Com o ninho vazio, aproveitam para viajar e comprar saca-rolhas em lojas de antiguidades.
Mas o passatempo predileto de Moyra  debruar-se sobre um excelente livro... um romance, claro! Moyra adora comunicar-se com leitoras. Voc poder escrever para P.O. Box 161, Blaine, WA 98231-D161.
